terça-feira, 14 de novembro de 2017

Memórias


“Memórias, não são só memórias, são fantasmas que me sopram aos ouvidos, coisas que eu nem quero saber”. O refrão da música Memórias da Pitty reflete bem os assombros de um deprimido. Lembranças de coisas que não deram certo, traumas do passado, até lembranças felizes que nos remetem a uma tristeza da infelicidade do caos que se fez. Não quero mais lembrar. Prefiro esquecer.




Esquecer das roupas cuidadosamente escolhidas e do quarto arrumado do bebê tão esperado, mas que simplesmente se foi num abrupto ato de crueldade da vida. Esquecer anos de momentos felizes de um casamento despedaçado. Esquecer o sonho de quem chegou tão perto, tão perto, mas, quando estava prestes a alcançar, foi dispensado por uma impossibilidade. A vida. Tão bela e tão triste.

“Eu dou sempre o melhor de mim, e sei que só assim é que talvez se mova alguma coisa ao meu redor” (Memórias, Pitty). O esforço de quem já chegou ao fundo do poço é se mover, se debater até se desprender das memórias que o prendem à dor. A dor não se alivia. A dor se supera.

A dor se supera com a construção de novas memórias felizes, com novos objetivos de vida, com pequenas e grandes conquistas. A dor se supera com o novo. A novidade é o que possibilita a construção de uma nova história em que o medo da dor é superado pela vontade de viver. De continuar.

Não, você não vai esquecer. As memórias constituem quem você é. Sem elas, somos almas vazias. Mas só perdoando o passado é que podemos começar a superar a dor e encontrar um novo objetivo de vida. Onde está? É preciso olhar para dentro de si... Acredite, tenha fé, você vai achar.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Solidão

Uma vez eu li um texto da Martha Medeiros sobre amar sua própria companhia e aprender a estar sozinho e divertir-se consigo mesmo. Concordo. Mas estar sozinho é diferente de sofrer de solidão. E a depressão geralmente traz em si esse mal. Não sabemos direito se somos nós que nos afastamos das pessoas ou se são as pessoas que se afastam de nós. Parece um beco sem saída, um poço sem fundo.


Nos sentimos abandonados por quem mais amamos, incompreendidos. Transformamos esse sentimento de abandono em raiva e descontamos nas pessoas ao nosso redor, afastando-as ainda mais do nosso convívio. É um ciclo vicioso.

Por mais doloroso que seja, às vezes é preciso, nessa nova etapa da vida, de estágio depressivo, buscar novas amizades. Inscrever-se em um curso, numa academia, ligar para os novos colegas, participar das confraternizações. Eles podem não ser seus amigos, mas serão companhias. Procure se divertir com eles. Dar risadas, sair, respirar um pouco. Relaxar.

Mas aí você vai dizer: se eu nem consigo sair de casa, como eu vou fazer tudo isso? Calma, é um processo. Um passo de cada vez. Primeiro você precisa se agarrar a uma coisa muito importante para você, algo que te faça muito bem, que você ame. Segundo, você precisa colocar isso como um compromisso e ir mesmo sem ter vontade. Forçar a barra mesmo. Os compromissos nos mantém ativos e longe do peso de querer estar deitado na cama ou comer uma caixa de bombom inteira, chorar, gritar.

Outra coisa: se você está em depressão, levante-se e se arrume. Não fique de pijama o dia todo em casa. Eu sei, eu já fiz isso várias vezes, não estou julgando. Mas se esforce para não fazer. Se você é mulher, passe uma maquiagem, arrume o cabelo, vá ao salão. Mesmo sem ter vontade! Depois essa vontade vai vir e você vai se sentir melhor.

A solidão é um dos piores castigos do depressivo. E a não ser que você seja um afortunado, ninguém vai fazer por você o que você tem que fazer. Levantar-se da cama, por mais doloroso que seja. Eu, sei, parece que você pesa 300 Kg e não consegue levantar. Mas, vamos, você vai conseguir. Um passo de cada vez. Estamos juntos!

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Banho de Chuva

Nos olhos há sequidão. Mas, no céu, uma pequena nuvem traz a esperança de uma chuva acalentadora. 

Ah, como eu gosto de chuva. Deixar-se encharcar pela chuva forte de verão. A chuva lava a alma e leva embora, por alguns segundos, toda preocupação.



Começaram a cair alguns pingos d’água. Minha alma se ouriça toda como uma criança à espera de um brinquedo prometido.

O céu é cinza e feio. Mas feio para quem? Não para mim que espero ansiosa pela chuva que lava e expurga os meus pecados. Sim, meus pecados são muitos.

Mais uma vez eu espero. Olho para fora da janela e vejo a grama já molhada e a vista das árvores ao longe um pouco turva. É a chuva fina que cai.

Meus pensamentos vagueiam e penso como é bela a chuva que se forma lá no céu, não no céu das estrelas, mas no céu pertinho de nós. É como uma bênção. Não penso em ciência. Só nas nuvens carregadas, na magia da água que se precipita a partir das nuvens. Nuvens de algodão.

Aprendi na escola, mas até hoje não entendo de que são feitas as nuvens. Já passei por cima, por dentro e por baixo delas de avião e até hoje não sei o que são. É pura mágica.

Finalmente a chuva caiu forte. Então eu saí e me lavei. E respirei fundo o cheiro da terra molhada. E deixei todos os meus pensamentos ali.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Timoneiro

Minha visão está embaçada. Meus olhos mareados. O mar vem e vai com as suas ondas e a maré sobe e desce conforme a sua jornada. Não conheço ainda a minha. Não sei para onde vou. Só sei que sigo em frente, na direção em que não conheço o fim, numa estrada por vezes cheia de luz, por vezes, sombria.



Estou cansada de levar o barco. Queria alguém para pegar na minha mão, segurar e me levar um pouco navegando nesse mar. Um timoneiro experiente. Mas não há. Sigo nesse mar infinito, onde não vejo o horizonte, mas a esperança me dá a certeza da chegada e de um caminho cheio de surpresas, suspense, tristezas e alegrias. Imagino uma praia deserta, de natureza farta, uma comunidade amistosa, amigos.

Sinto um peso nas costas. Mas aí me lembro que se soltar o leme, o barco vai desgovernar, as ondas vão cobri-lo e ele vai afundar. Então permaneço.

Meus olhos estão mareados. Quase não enxergo. Forço a vista na tentativa de encontrar o mapa e a bússola. Mas não sei se estou no caminho certo.

O barco está navegando. As ondas vêm e vão. Silêncio. Imensidão. Solidão.

O barco está seguindo com as suas velas a soprar. O vento está em meu favor. Agora o ruído de ventania corta o silêncio da solidão e não sinto medo do zunir do vento. Ele está em meu favor.

Sim, estou cansada. Ao longe vejo uma ilha, um refúgio. Vou até lá descansar antes de continuar. Não vou demorar.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Animal Domesticado

Come. Dorme. Deita. Rola. Um animal domesticado. Tudo faz por um biscoito ou um afago. Não importa se está certo ou errado, ele é disciplinado.

Não é muito diferente do que eu tento ser agora. Devo esconder o furacão que há em mim, o espírito selvagem, e ser sempre dócil, receptiva, assertiva e resiliente.

Preciso me adaptar às mudanças, a lidar com as pressões tranquilamente, ser treinada, enfim, domesticada. 

Sou atacada, mas não posso atacar. Sorrio, tento ser simpática, respiro fundo, lembro-me dos meus exercícios de meditação. Autocontrole é a chave. Mas que merda de autocontrole é essa? Parece-me utopia de livro de autoajuda. 

Tudo isso parece mais uma prisão. Mas não importa. Estou presa em um labirinto e ninguém se importa. Tenho que sair dele antes que a loucura tome conta de mim.


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Amor demais

Amor demais sufoca. É como a criança pequena, que de tanto amar, aperta um pintinho até matá-lo, sem querer... Ou como aquele desenho animado da menina Felícia que quer apertar os bichinhos fofinhos até que lhes saltem os olhos. 


Pois é, parece que tem até um estudo da Universidade Yale, nos EUA, publicado na revista Psycological Science, explicando que é normal sentirmos uma euforia positiva quando vemos um filhote de gato ou cachorro. Mas, logo depois, outro impulso, o de morder e apertar até a morte, costuma aparecer como uma forma de neutralizar o primeiro sentimento positivo que está fora de controle. É, sim, muito louco. (risos).

Já esteve com alguém assim, que parece amar demais, que quer controlar a sua vida e cada passo que você dá? Que sente ciúmes a ponto de achar que você é desejado ou desejada por todos e que precisa “proteger” você, a presa indefesa, desses predadores maus?

Tem um grupo de autoajuda: Mulheres que Amam Demais Anônimas (MADA). Já ouviu falar? A instituição se define como “uma irmandade de mulheres que compartilham suas experiências, forças e esperanças, para resolver problemas em comum e ajudar outras mulheres a se recuperarem de sua dependência de pessoas.” Isso é muito sério. Essas mulheres sofrem abusos físicos e psicológicos e não conseguem abandonar os seus parceiros!

O ciúme é destrutivo no relacionamento e nada justifica a violência, seja ela física ou psicológica. A Bíblia Cristã diz que o ciúme é como uma sepultura: “Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas”. Cânticos 8:6

Em outro versículo, a Bíblia defende: “O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece” 1 Coríntios 13: 4

Vamos amar muito sim, mas com liberdade e dando asas para quem se ama voar e voltar quando bem quiser. Esse é o verdadeiro amor. Libertem as borboletas!

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Minha Felicidade


Dias atrás, li uma frase da Clarice Lispector que me marcou: “o que a gente não entende se resolve com amor”. Não sei se Clarice já estava deprimida quando escreveu isso, mas para mim foi um soco no estômago e, ao mesmo tempo, libertador. Clarice teve um filho esquizofrênico. Como entender a doença, "de quem é a culpa, será que é minha? Como aceitar?". “O que a gente não entende se resolve com amor”.

Se choro pelo que não entendo? Sim, aos prantos. Mas depois de todo choro, acordo melhor e penso: por que eu vou ficar me punindo tanto? Melhor olhar para dentro de mim porque nem sempre olhar para o lado de fora nos faz encontrar uma lógica ou mesmo compreensão.

Sim, eu decidi: o que eu não entendo resolvo com amor. Mais amor por mim. Aceitando o que não tem explicação, o que eu não sei, o que às vezes parece ser uma punição divina, mas... o que eu não entendo vou resolver com amor. Melhor assim.







quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Me espera

Quando me enviaram um link para ouvir a música “Me Espera”, de Sandy Leah, Lucas Lima e Tiago Iorc, chorei tanto que fiquei com raiva (risos). Eu respondi pelo Whats App a quem me enviou: “se essa música é para mim, estou bem aqui, não fui a lugar algum”, numa tentativa de me defender da solidão e da dificuldade das pessoas, mesmo das que me amam, em lidar com a minha depressão.



A verdade é que quem me enviou a música sabia perfeitamente o que ela ia representar para mim. Foi a primeira vez que ouvi. E ouvi repetidas vezes enquanto as lágrimas rolavam sem parar. Claro que acabou virando um dia bem “down”, mas valeu a pena.

“Tenta me reconhecer no temporal, me espera”. A solidão da depressão é terrível. Não consigo lidar com as pessoas e as pessoas não conseguem lidar comigo e esse ciclo só piora tudo. A vida social afundou e de repente me vi sem família e sem amigos. Todos se foram...

Mas “ainda estou aqui, perdido em mil versões, irreais de mim. Estou aqui por trás de todo o caos em que a vida se fez”. Como é difícil sair desse redemoinho. Da angústia que assola e que engole a minha alma. Que faz tudo perder a graça e a cor. Que faz tudo ficar sem sentido e nem mesmo a beleza me comove mais. Apenas quero ficar livre dessa falta de ar que me sufoca, do coração acelerado, do olhar perdido, das conversas que não parecem fazer mais sentido.

Como eu quero me encontrar, mas não consigo. As drogas legalizadas me anestesiam um pouco e eu aproveito: só quero fechar os olhos e dormir. Como estou cansada. Me esforço e vou trabalhar. Vou ao supermercado, à igreja, ao médico, cuido de filho, com todo amor para que não perceba nada. No meio da angústia, sempre um sorriso no rosto, a voz firme, os deveres e afazeres cumpridos. 

Mas todo o resto está em pedaços. A confiança nas pessoas ficou abalada e já não me reconheço nesse temporal, nem as pessoas me reconhecem mais. Também, de toda forma, eu mudei e nunca mais serei a mesma. A pessoa que eu era antes me fazia mal e me deixou adoecer. Não digo mais sim para tudo. Não vou aonde não quero. Me coloco em primeiro lugar, sempre que posso. Não acredito mais que as pessoas mudem, quer dizer, genericamente a mudança é um processo bem doloroso, intenso e que pode nunca acontecer.

Esperar pela mudança nos outros é um erro. Mais fácil é esperar pela mudança em mim. Porque eu, sim, sou capaz de fazê-la acontecer. Eu, sim, sou capaz de aceitar ou não as pessoas como elas são. Eu, sim, sou capaz de viver e, quem sabe até... amar de novo. Me espera.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Amor x Depressão



Depressão é, dentre muitas coisas, não ter vontade de viver. Se você tem algo porque lutar, se agarra com todas as forças. Eu tenho uma pessoa que depende de mim e que sei que sentiria muito a minha falta caso eu me fosse. Alguém que eu amo tanto que não quero que sinta a dor do luto. E é por essa pessoa que eu faço todas as recomendações para sair desse buraco sem fim: orar, meditar, trabalhar, passear, viajar, ter hobbies, gastar uma fortuna em terapia, médico e medicamentos. Tudo para levar uma vida quase normal.

É... “por você eu largo tudo: carreira, dinheiro, canudo”. Amor incondicional. Às vezes, me sinto cansada de lutar. Mas continuo por causa daquele sorriso, daquele abraço, “do amigas para sempre”. Minha imunidade cai, e de seis passo para 10 comprimidos ao dia tratando várias doenças secundárias, chamadas de psicossomáticas. Os psicólogos dizem que é outra forma que o nosso corpo encontra de chorar que não pelos olhos. Estranho isso. Parece que o corpo fala.

Voltei às aulas de dança. Mas como minhas pernas pesam para eu chegar até a academia! Quando consigo chegar, o peso se vai e danço leve como se estivesse a voar. É uma das minhas poucas paixões nessa vida.

Também encontrei um novo amor, amor de homem e mulher. Mas, como todo amor, é complicado... E também cansa. O amor cuida, mas cobra. Você sempre tem uma conta a pagar. Nada é gratuito nesta vida. Tudo tem preço de sangue e suor. E você nunca sabe que surpresa terá pela frente, se boa ou ruim. E quem está deprimido, claro, tem pavor de decepção. 

É preciso fazer novos planos. Mas quando estou quase lá, no topo da escada, parece que ela é rolante e vai descendo até que retorno à base. Que sufoco!

No consultório de psiquiatria, parece que somos ratos de laboratório, sendo testados por uma ciência tão nova quanto imprecisa. O remédio não necessariamente te cura, mas ajuda, e muito. Só que, no início do tratamento, também parece que te mata aos poucos, tirando a sua liberdade de viver plenamente. 

É claro que uma pessoa diabética tem que tomar insulina para o resto da vida. Mas o remédio psiquiátrico parece bem mais limitante. Porque trata da sua alma, da sua mente. É como se você não fosse mais dono de si e precisasse de uma droga para te carregar. Eu já odiei isso. Hoje aceito e entendo que posso me me superar a cada dia, mesmo que nem todos os dias sejam bons. Cada passo dado é uma conquista.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Onde estão meus pais?


Nos tempos atuais, ser pai e mãe não é para qualquer um. O homem é um ser social, ele precisa da comunidade para suprir suas necessidades físicas e emocionais. Mas o que me parece é que, nas grandes cidades, cada vez mais a socialização precisa ser comprada: creches, escolas, colônia de férias, babás para tomar conta dos filhos enquanto eles brincam com outras crianças no parquinho.



Bom, quem pode culpar os pais? Trabalha-se muito, o tempo é curto, falta tempo para si, dinheiro e tempo para ter mais de um filho, os parentes moram longe e a família se resume ao seu núcleo familiar. Os avós não se aposentam tão cedo, precisam ou querem continuar trabalhando e já não participam mais tão ativamente da criação dos netos.

É uma multidão em meio a um isolamento silencioso, o isolamento emocional, que tem levado à tão temida doença do século, a depressão. Segundo estimativas, a depressão pode estar atingindo até 20% da população mundial. E as nossas crianças não estão de fora. Nas últimas semanas, nas redes sociais, há uma forte campanha alertando sobre o jogo infanto-juvenil de tendências suicidas, Baleia Azul. O jogo ocorre em grupos fechados via WhatsApp ou Facebook.

Mas a pergunta que que não quer calar é se a culpa é do jogo ou da nossa sociedade. E não estou falando da falta de atenção da família ao comportamento dos filhos, da ignorância sobre a doença depressão ou da falta de assistência da saúde pública. Mas do porquê de estarmos construindo uma sociedade de deprimidos.

Na Netflix, a série sobre o suicídio de uma adolescente, “13 reasons Why”, está batendo recorde de audiência. As pessoas estão realmente preocupadas e interessadas no assunto, porém parecem que ainda estão muito longe de compreender as causas e raízes da depressão ou do suicídio.

Em todos os grupos brasileiros de debate sobre depressão e ansiedade no Facebook dos quais participei, falar sobre a série "13 reasons Why" ou o jogo Baleia Azul é proibido, podendo o usuário ser banido do grupo. Afinal, para pessoas deprimidas assistir à série geralmente coloca ainda mais “para baixo”, muitos se identificam com a personagem, afirmam que choram muito, ficam arrasados e, acredito eu, até estimulados pela ideia suicida. Confesso que preferi seguir o conselho dos moderadores de grupo e achei melhor não assistir já que também sofro da doença.


Claro que sou adulta, sou mãe, assim que descobri que estava com depressão iniciei o tratamento, mas nossos adolescentes estão mais vulneráveis. A adolescência é e sempre foi uma fase difícil e, quando tudo parece perdido, a família não te entende, não há o medo de morrer, o que se vê é apenas o medo de viver e continuar com todo esse sofrimento.

A maior parte das pessoas não entende que depressão não é tristeza, não se mede por quem sofreu mais ou menos, não é falta de Deus nem frescura, mas um estado de saúde psíquico comprometido. Se fosse câncer ou pneumonia, todos entenderiam, mas um adolescente se cortando é visto por muita gente ainda como uma forma de chamar a atenção dos pais ou de castigá-los por não fazerem suas vontades etc.

Muitas são as desculpas para os pais se negarem a ver o óbvio: está mais difícil, sim, criar filhos saudáveis e felizes. E se você não está disposto a se jogar de cabeça nessa empreitada, pôr os seus filhos em primeiro lugar e entender que colocá-los nas melhores escolas e faculdades não é necessariamente o mais importante, mesmo nesse mundo louco, altamente competitivo, em que se precisa ter um supercurrículo para se ter a chance de um salário mediano... Conselho: não tenha filhos. Por mais que a sociedade te cobre, esta não é uma missão obrigatória. Mesmo que eu e muitos venham te dizer que é a melhor experiência da vida e o maior amor que você vai ser capaz de sentir, sabemos que não é assim para todo mundo.

Pode parecer radicalismo, mas me defendo dizendo que é conselho de mãe. Não estou desencorajando a paternidade, mas chamando à responsabilidade. Mesmo pequena, vejo minha filha sofrer com a solidão de ser filha única, de não ter primos no quintal para brincar, como era antigamente, com todo mundo perto, tios, avós e agregados.  E faço todo o esforço para contornar essa situação, levando-a pessoalmente para brincar com os amigos à noite, quando algumas vezes eu gostaria apenas de descansar, ou ficar morrendo de saudade dela porque foi brincar na casa de algum parente com as primas quando eu queria estar com ela no final de semana.





Sei que, quando ela se tornar uma adolescente, terei que estar ainda mais atenta às companhias, ao que assiste na TV, restringir o acesso à Internet, invadir, sim, por vezes sua privacidade. Mas principalmente dialogar, entender seus anseios, suas necessidades, seus medos, o que tem acontecido na vida dela. Esperando pelo melhor, que ela possa me ter como amiga especial, aquela para quem não se conta tudo, afinal mãe tem que ser mãe e não pode concordar sempre e achar tudo legal. Mas aquela amiga com que a gente conta quando mais precisa, para quem falamos as coisas realmente importantes, para quem a gente pede socorro quando está em apuros.

E eu espero ficar por aqui um bom tempo, minha filha, para apoiá-la no seu crescimento e desenvolvimento. É claro que também vivo para mim, não abro mão de tudo por você, mas de tudo que for necessário (e mais um pouco, não vou mentir) para vê-la crescer feliz. Espero não te decepcionar e, enquanto eu viver, que você não venha fazer a terrível pergunta: “Onde estão meus pais?”. E, quando eu morrer, que você saiba exatamente onde me encontrar: no seu coração.  

sábado, 8 de abril de 2017

O dia do perdão

O problema da depressão é que ela muitas vezes chama junto consigo a ansiedade. E aí ela te rouba a alegria, a vontade de viver, a energia e te dá em troca cansaço, ansiedade, agressividade, medo, tristeza, pânico. E como se não bastasse tudo isso te levam embora também familiares e amigos que não conseguem compreender a doença ou não suportam ficar perto da dor. E talvez seja essa a parte mais difícil para quem sofre da doença: ver as pessoas se afastando de você no momento em que você mais precisa. E, como consequência, a doença cresce e você fica ainda mais deprimido, rancoroso e se afasta cada vez mais das pessoas que ama.


Meu terapeuta me disse uma vez que o ser humano não suporta ficar perto da dor. Ele faz de tudo para, se possível, evitá-la. Fico pensando que tem pessoas que não conseguem nem mesmo ir a um enterro de um ente querido ou de uma pessoa qualquer, apenas para prestar solidariedade à família. Imagina estar perto de alguém que geme de dor, mas você não vê onde dói, nenhuma fratura exposta, nem uma radiografia, tomografia, eletrocardiograma, diagnóstico de tumor maligno. Será que está doente mesmo? Não será só tristeza sem motivo? Tem tanta gente pior... Tetraplégicos agarrando a vida com força e fazendo de tudo para ser felizes. Por que fica aí deitado na cama, ou chora sem motivo, fica ansioso, abatido, não quer se divertir, falar de assuntos banais ou cotidianos? Por que oscila tanto e ora parece feliz, ora parece triste?

Na verdade, não entendem o que você tem, o seu diagnóstico, nem a sua luta pela sobrevivência. Que você todo dia busca terapia, meditação, acupuntura, religião, apega-se às responsabilidades do trabalho, com os filhos, uma motivação forte para continuar a levantar todos os dias quando o que você queria mesmo era fechar os olhos e esperar tudo passar ou, quem sabe, a morte chegar. Mas ela não chega...


E você não entende que as pessoas dão o que podem, o que sabem, que podem ser cruéis, sim, mas às vezes não é falta de amor, só não sabem como te ajudar e não aguentam mais ficar perto da sua dor.  Nessa hora, você vai se sentir abandonado, mas entenda, perdoe, prossiga. 

Alguns vão dizer que é falta de comunhão com Deus, então você pode se culpar e achar que é um castigo divino e não uma doença real. Se fosse diabetes, pressão alta ou câncer, ninguém ousaria falar isso. Mas doença psiquiátrica é outra história... Muitos nem sabem se isso realmente existe. Será que não é loucura? Frescura? Surto? "Piti"? Nessa hora, você questiona a sua sanidade mental, mas fique firme, você não enlouqueceu, só está perdido dentro de um labirinto. Tenha paciência e você encontrará a saída. Procure ajuda de quem realmente tem luz para te ajudar.

Participei de alguns grupos sobre depressão e transtorno de ansiedade na internet e vi que há casos muito piores que o meu e histórias muito piores que a minha. Percebi como as pessoas se ajudam e se solidarizam com os problemas respondendo rapidamente aos comentários, às dúvidas, aos desabafos. Sabem que uma simples palavra amiga pode salvar uma vida do suicídio ou da entrega.


Chega então um dia em que você se fortalece e descobre que também pode ajudar. E, mais ainda, que também pode compreender os que não te compreenderam. Ainda que você não esteja pronto para retomar ou nem queira mais os velhos relacionamentos. Afinal, você mudou, não é mais o mesmo. Você descobre que, ainda doente, parece mais forte que antes, seu coração passou por uma ginástica incrível, e, se você sobreviveu até agora, o seu mundo mudou, o seu coração mudou e você vê tudo de um outro jeito. A felicidade importa mais do que o dinheiro, as pequenas realizações mais do que conquistar o mundo, e a caminhada se torna mais importante que a chegada. E você chora copiosamente ao ouvir a música Trem Bala, composta e cantada por Ana Vilela, com mais de oito milhões de visualizações no Youtube, e que não teria nenhuma chance no universo comercial da música, não fosse pela singeleza da canção, em um mundo em que as pessoas estão sobrecarregadas de tanta competição.


“Não é sobre chegar no topo do mundo e saber que venceu. É sobre escalar e sentir que o caminho te fortaleceu”. Trecho da música Trem Bala, de Ana Vilela (https://www.youtube.com/watch?v=TEjqASLuRGw

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Nise – O coração da Loucura (Alerta de Spoiler)

Tenho tentado fugir de escrever sobre temas tratados por filmes. Mas parece que agora eles me perseguem ou eu os persigo, sem perceber. Fato é que o filme “Nise – O coração da Loucura” (2016) é um filme excepcional para quem gosta de refletir sobre o ser humano e a sociedade, em geral. Sim, porque o filme vai muito além de tratar sobre psiquiatria e a contestação de técnicas hoje reprovadas como a lobotomia ou eletrochoques. É um retrato belo e delicado sobre a inclusão social, um debate sobre a loucura, sobre o amor, sobre a arte e o afeto. (Atenção: contém spoilers)


Sei que loucura por si só é um tema muito polêmico. Já tive um professor de Filosofia que passou seis meses defendendo que a loucura não existe. Então, por favor, não se prendam muito à precisão dos termos e conceitos, apenas deixem a emoção fluir. Não estou aqui para tratar de ciência, mas de sentimentos, coragem, superação, machismo, sofrimento e todo esse louco universo dos antigos manicômios brasileiros.


Tenho muitos motivos pessoais para me encantar com “O coração da loucura”. Já enfrentei pânico e leve depressão, “fichinha” para médicos e pacientes que enfrentam doenças infinitamente mais sérias, como esquizofrenia, transtornos diversos, sociopatia etc. E minha avó passou anos e anos como enfermeira na antiga Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro.


Além das milhares de histórias tenebrosas e tragicômicas que ouvi desde a infância, também tive a oportunidade de visitar o hospital psiquiátrico (antes, denominado, hospício), quando minha avó trabalhava lá. Ver pessoas nuas, pelo chão, alimentando-se como cachorros, exatamente como no filme. Mais tarde, já com 18 anos e estudante de Jornalismo, entrevistei o então jovem diretor da Colônia, que já aderira ao movimento antimanicomial – movimento esse que também gera muito “pano para manga”, principalmente para as pessoas mais pobres que precisam de internação para seus parentes. Mas isso é papo para outra discussão e não tenho gabarito para isso. Já temos estudiosos bastante debatendo esse tema.


O que importa é que o filme é um documental, visto que a Drª Nise da Silveira (1905-1999) foi de fato uma psiquiatra muito à frente de seu tempo. Não quero me estender muito aqui falando sobre o filme, os prêmios que ganhou, ou sobre a figura extraordinária da Drª Nise, uma vez que vocês podem encontrar muito sobre tudo isso com uma rápida pesquisa na internet. Mas gostaria de destacar algumas frases e imagens que marcaram a minha memória e as minhas emoções ao assistir ao filme.


“Eu não acredito na cura pela violência”. Isso é o que a Drª Nise responde quando volta ao Centro Psiquiátrico Pedro II, no Engenho de Dentro (RJ), depois de quase dois anos presa por posse de livros marxistas, e mais cinco anos vivendo com o marido na semi-clandestinidade, afastada do serviço público, por razões políticas. Quando retorna, ela se depara com as “modernas” técnicas de eletrochoque e lobotomia realizada para a “cura” de internos esquizofrênicos.


“Quem se preocupa muito com o que os outros dizem, acaba deixando de viver. Eu sei o que é melhor para mim”. Achei essa frase sensacional se pensarmos que hoje em dia nos preocupamos com tudo o que os outros pensam a nosso respeito, num esforço incansável de tentar agradar a todos a todo custo e sermos aceitos e nos encaixarmos nos moldes da sociedade. A personagem Nise não se deixa abater e aceita trabalhar no abandonado centro de terapia ocupacional do Centro Psiquiátrico, mesmo que isso custe o risco de abalar o seu prestígio como médica e pesquisadora.


“Eu não sou maluco. A loucura é que entrou em mim”. Essa frase de um dos pacientes, ou clientes, como a Drª Nise preferia chamá-los, nos leva a refletir sobre o que é a loucura, seus estágios, como e quando se desencadeia e até que ponto o ambiente em que se vive e o tratamento que se recebe não faz você parecer ou ficar ainda mais louco. É de uma incrível sabedoria do tal “maluco”, claro, é um personagem, mas saindo da boca dele é uma frase profunda e, desculpem os especialistas se digo alguma tolice, mas considero absolutamente genial.

“O meu instrumento é o pincel. O seu é o picador de gelo”. Sem medo, Drª Nise responde sobre suas técnicas terapêuticas, desconsideradas e ridicularizadas pelos demais médicos da instituição, que usavam o picador de gelo na lobotomia. Tempos depois, as pinturas e esculturas de seus clientes foram reconhecidas pelo mundo artístico e aplaudidas por grandes críticos. Estamos falando da década de 40. Será que eu e você, sendo mulher, responderíamos a um homem dessa forma, dentro de um manicômio, em plena década de 40? Isso é que se chama coragem e determinação. 

“É a janela aberta vendo a paisagem. Um dia ela abre. Mas dá muito trabalho”. Paciente, já bem evoluído no tratamento terapêutico, falando sobre a sua bela pintura. Agora já dá para ver a paisagem, mas ainda não dá para sair. Dá muito trabalho, sim. Quem já passou por tratamento psiquiátrico, incurável ou não, sabe muito bem o que significa essa frase de completa libertação e o que é a luta diária em busca do equilíbrio e da sanidade.

“Se ia tirar, por que é que deu?”. Meus Deus, até onde vai a maldade e a burrice do ser humano. Como afronta, a direção do hospital mata os cachorros que a Drª Nise mantinha com seus pacientes para promover os laços de afeto e auxiliar no tratamento. Hoje essa técnica é mais do que comprovada. Acho que fazem isso por pura inveja. Não se contentam que um médico possa estar tendo sucesso usando cachorros. Que insanidade até para a época! Mas será que nos dias de hoje não acontecem coisas parecidas? Quantos gênios, de verdade, são compreendidos em vida? E quantas pessoas não querem abafar outras por pura inveja até num simples trabalho? 

Nise também grita como louca enquanto o paciente Lúcio grita com a dor da perda de seu cachorro. Isso se chama amor e empatia. Vai além da profissão. Não precisa explicar muito, não é? Uma cena forte e muito comovente.



Por fim: “Há dez mil modos de ocupar-se da vida. E de pertencer à sua época”. Esse é aquele momento em que você redobra a sua atenção: o filme nos brinda com a aparição da verdadeira Drª Nise, já bem idosa. Ela diz que pensa como Antonin Artaud (1896-1948)* e então se corrige, como quem puxa a frase lá do fundo da memória, mas não importa, a interpretação é ainda mais bela: “Há dez mil modos de pertencer à vida e lutar pela sua época”.

Nessa hora, com o coração feliz e apertado pela oportunidade de conhecer essa linda história, recolho a minha insignificância, mas aproveito a admiração, a força e a inspiração dessa mulher, Drª Nise da Silveira, e cada um de seus clientes, portadores das mais diversas condições clínicas, esquizofrênicos, loucos, artistas fenomenais, que nos ensinam o que é ser mais humano, como Fernando, Adelina, Lúcio, Carlos, Emygdio, Octávio e Raphael. Sim, é possível!



*Antonin Artaud (1896-1948) foi poeta, teatrólogo e dramaturgo francês de inspirações anarquistas, considerado um louco visionário do teatro surrealista, desenvolvedor da teoria do teatro da crueldade, inspirado no teatro oriental. O poeta, que defendia a reprodução nos palcos dos sonhos e dos mistérios da alma humana, foi internado várias vezes, sendo submetido a eletrochoques e outros tratamentos violentos, morrendo aos 51 anos, num quarto de manicômio. (http://antigo.programacinesom.com/2016/04/nise-o-coracao-da-loucura-resgata.html)

quinta-feira, 30 de março de 2017

Como eu era antes de você (alerta de Spoiler)


Se você assistiu ao filme “Como eu era antes de você” (2016), baseado no livro best-seller homônimo de 2012, deve ter chorado horrores. Pelo menos eu chorei, e muito. Claro, a gente tende a preferir finais felizes. E o final desse filme é bem trágico. Will, um rapaz rico, amante de esportes radicais, ficou tetraplégico como consequência de um acidente de trânsito. Depressivo, ele adotou o cinismo como modo de vida, até conhecer finalmente o seu grande amor, Louisa. Uma jovem pobre, divertida, carismática, com gosto duvidoso para roupas, para não dizer cafona. Louisa, que é contratada como cuidadora de Will, arrebata o coração partido e amargo do rapaz, devolve a ele um pouco da alegria de viver, mas, mais do que isso: dá a ele uma nova perspectiva sobre a vida, um novo ângulo, que o transforma em uma pessoa melhor.

Tudo vai muito bem, um romance típico, deliciosamente açucarado, não fosse pelo final audacioso, que trata de um assunto bastante polêmico e difícil: o suicídio assistido. Will, antes de conhecer Louisa, já tinha um trato com seus pais de que, caso ele não apresentasse melhora em sua condição precária e sofrida de saúde, ele se submeteria a um procedimento na Suíça, em que o paciente recebe ajuda para morrer. O inesperado no universo romântico, mas totalmente crível no mundo real, é que Will não muda sua decisão mesmo depois de se apaixonar por Louisa. Ele entende que seu sofrimento não vai cessar ainda que a moça amenize a dor da sua precária vida. E acredita que também a estaria mantendo presa, tudo o que não quer se fazer com quem se ama de verdade. Libertar é um ato de amor, dos mais profundos e difíceis de fazer.

Certo é que pelo menos quatro países já legalizaram o suicídio assistido, geralmente sob condições rígidas: de que o paciente esteja em condição médica irreversível e esteja passando por um sofrimento mental ou físico constante que não possa ser aliviado. Diferentemente da eutanásia, no suicídio assistido, o paciente precisa estar totalmente consciente e, em alguns países, exige-se até que o paciente tenha condições de levar à boca, sem ajuda, o coquetel mortal.

Enfim, o filme me fez pensar. Justo eu que sou totalmente a favor da vida, que já passei pela depressão e pelo desejo de não querer mais viver, mas lutei, relutei em não ficar na cama, chorava, gritava, enxugava as lágrimas. Agarrei-me com todas as forças à minha grande razão de viver, meu pequeno grande anjo de cachos dourados. Convivia com a completa incompreensão dos que estavam à minha volta sobre a doença, taxada como fraqueza, frescura. “Tem tanta gente em situação pior”, as pessoas pensam. Tem mesmo, e daí? Isso não muda a condição de quem está sofrendo.

Também sempre fui contra a eutanásia. A pessoa está em coma absoluto por anos, mas vai que ela volta à vida? Não aparecem aqueles casos milagrosos nos jornais? Mas o amadurecimento vai mudando um pouco a nossa forma de pensar e colocando dúvidas na nossa cabeça, antes totalmente convicta de opiniões resolutas típica dos jovens. É justo a evolução da medicina nos prender a esta vida como vegetais? É fazendo a eutanásia que nos colocamos no lugar de Deus, decidindo a morte de uma pessoa, ou é mantendo alguém vivo artificialmente por aparelhos, sem os quais o paciente não sobreviveria, é que nos tornamos divinos prolongando a vida já terminada, apenas um corpo com órgãos vitais funcionando? E quando a medicina estiver tão evoluída que puder prolongar essa sobrevida quase que indefinidamente?


Nossa, quanta coisa para pensar... Envolvem crenças morais, éticas, religiosas, sem dúvida. Decidir no campo individual pode ser mais fácil, mas quando se trata de mudar a legislação de um país, as coisas ficam bem mais complicadas. Principalmente se a gente tem que participar dessas decisões. E elas chegam dia a dia, o mundo fica cada vez mais complexo porque querem trazer à tona coisas que sempre foram feitas desde que o mundo é mundo e ninguém pedia (ou pede) permissão ainda que sofresse (ou sofra) consequências. Não são leis que impedem alguém quando se decide sobre algo tão sério: libertar matando o seu ente querido, ou simplesmente deixando morrer; ajudar alguém a dar cabo de uma vida sem perspectiva alguma de futuro, um paciente terminal que vai morrer de forma lenta e dolorosa porque a medicina avançou muito em manter essa vida de dor.

Como é difícil jogar luz nessas questões e ter que decidir como sociedade. Sinceramente, não sei se estaria pronta. Confesso um certo alívio pelo Brasil estar longe de realizar um plebiscito em que eu teria que ter uma opinião. Às vezes é muito bom não ter opinião. Mas é bom saber também que tem lugares em que as pessoas podem decidir sobre o prolongamento ou não da vida. Saber que tem países que tiveram coragem de discutir o assunto e garantir os direitos individuais acima das crenças coletivas. Porque por mais que possamos amar a vida, por mais que haja pessoas fantásticas, com talentos incríveis que se mantiveram motivadas mesmo com doenças degenerativas, tetraplegia, câncer terminal a querer respirar até o último sopro de vida... Não podemos julgar quem não encontrou uma grande motivação, que não tem os mesmos dons e talentos e que é obrigado a conviver com dores físicas crônicas e quase insuportáveis. Quem somos nós para julgar? Será que temos esse poder de decidir por alguém? Não faço a menor ideia... E me arrisco a dizer que, assim como você, prefiro não pensar muito sobre o assunto. 

sábado, 25 de março de 2017

Juliete e o psicopata


Juliete encontrou o grande amor da sua vida. Pelo menos era o que ela pensava. O primeiro encontro com Carlos foi ocasional, em um restaurante próximo aos locais de trabalho de ambos. Seguiram-se vários encontros e desencontros nesse restaurante, onde Carlos investia para conquistar o coração de Juliete. Até que seis meses depois, ela finalmente se rendeu aos encantos daquele rapaz envolvente, de descendência alemã.

Juliete era uma menina romântica, como quase todas da idade dela: tinha apenas 18 anos. Carlos era um homem mais experiente, no auge dos seus 30 anos de idade. Enfim, começaram a namorar. Carlos buscava Juliete todos os dias de carro para levá-la ao trabalho. 

O relacionamento seguia sem muitos percalços a não ser por algumas diferenças de objetivo de vida: Juliete era jovem, queria estudar, terminar a faculdade; Carlos já estava com 30 anos, queria constituir família, ter filhos, casa, cachorro e tudo mais. Assim Juliete seguia enrolando Carlos, sempre trabalhando e estudando muito. Queria ser independente, “ser alguém na vida”, pensava. Não queria ser apenas dona de casa. Mas sempre que possível os dois se encontravam, trocavam juras de amor e fidelidade eterna. E como todos os dias, durante o tempo de namoro, Carlos pegava Juliete em casa e a deixava no trabalho.

Carlos trabalhava em uma empresa de logística e transporte de cargas. Juliete estudava análise de sistemas, mas tinha o sonho de um dia se tornar webdesigner. No final dos anos 90 a internet estava em seu auge, o preço das ações das empresas desse setor estava no topo, e essa era uma profissão muito cobiçada. Assim Juliete dava duro e se esforçava. E Carlos, sem mudar de emprego ou ser promovido, comprava seu carro do ano. Depois, comprou uma moto de última geração. Mas nada disso causava estranheza em Juliete. Ou ela preferia não ver sinais de estranheza na vida e no comportamento de Carlos. Ela estava apaixonada, ele era tão carinhoso e dedicado. Por que se preocupar? Bobagem.

Carlos e Juliete eram um casal de namorados quase comum. Iam juntos ao cinema, shows, bares, mas os encontros familiares eram sempre na casa dela. Carlos dizia que tinha vindo de outra cidade e que seus pais já haviam falecido. Ele também oferecia bons jantares, presentes caros, coisas que seu salário não poderia comprar. Em troca, sem perceber, Juliete deixava-se iludir pelas mentiras e ser dominada: estava sempre cercada por um namorado que telefonava com frequência, a levava e a buscava no trabalho, sabia cada um de seus passos, seus amigos e conhecia todos com quem ela se relacionava. Nunca saia de casa sem o avisar e Carlos estava sempre atento à sua amada. “Quanto amor”, Juliete pensava. "Logo terminarei a faculdade e poderemos nos casar."

Mas antes de o planejamento perfeito de Juliete se concretizar, veio uma surpresa inesperada: ela estava grávida, de quatro meses. Como não tinha percebido antes? Óbvio, estava sempre tão focada em ser bem-sucedida profissionalmente, vivia viajando a trabalho, mal tinha tempo para si. E o tempo que sobrava, se dedicava ao Carlos. Mas estava certa de que a notícia não abalaria o relacionamento dos dois. Carlos implorava para ser pai, era seu grande sonho, como ele não poderia ficar feliz?

Juliete encheu-se de coragem e contou ao namorado a notícia do bebê não programado, mas tão esperado. Era uma segunda-feira de manhã. Os dois estavam em frente ao portão da casa dela. As grades brancas combinavam com o cenário amoroso em que Carlos se ajoelhava, beijava a barriga de sua amada e declarava: “finalmente, sou o homem mais feliz deste mundo!”

Na terça-feira, mais um dia de trabalho, Juliete, animada, aguardava Carlos à porta de sua casa, para levá-la ao trabalho. Mas pela primeira vez Carlos não apareceu. Juliete ficou preocupada e foi logo telefonar. Mas o telefone parecia inexistente. Bom, o jeito era ir de ônibus para o trabalho. Estava preocupada, mas tentava se confortar: “deve ter sido uma indisposição, quem sabe, comemorou a notícia do bebê até tarde, bebeu demais”.

Após o trabalho, Juliete foi à casa de Carlos, mas ele também não estava lá. As coisas estavam ficando esquisitas e quanto mais Juliete procurava, mais se via à beira de um ataque de nervos. Não tardaria, Juliete teria o maior choque de toda a sua vida. Carlos havia sumido da face da Terra! “Mas ele queria tanto ter um filho”... Não compreendia. Carlos tinha vendido a casa, o carro, a moto e tudo o que tinha. Ele literalmente sumiu do mapa, sem deixar rastros.

Mas a tragédia não terminaria por aí. Com o apoio da família, Juliete foi até a polícia, informou os números de documentos de Carlos, sua conta corrente, mas nada conferia. Era tudo falso. Carlos não existia. Ele nunca existiu. Nem mesmo amou Juliete sequer uma vez. Ele era um falsário, um psicopata, incapaz de formar laços afetivos. Durante os anos em que conviveu com Juliete, o tal Carlos administrava ao mesmo tempo, outras duas mulheres, que também mantinha sob o seu domínio, e tinha, ao que parece, outros três filhos.

Juliete quis morrer, quis matar, quis se entregar, queria arrancar simplesmente a dor enorme do peito de quem é enganada por um encantador de serpentes, um manipulador habilidoso, incomparável: psicopata. Carlos não existia. Anos de uma doce mentira. O que tinha sido real? Será que ela viveu realmente durante esse tempo com ele? Essas perguntas enchiam a cabeça de Juliete como um turbilhão de pensamentos que faziam a sua cabeça girar. O suicídio parecia o único caminho plausível.  

Até que algo se moveu dentro da barriga de Juliete. Ah, sim, o bebê. “Meu Deus, se eu me matar, vou matar uma criança inocente junto. Melhor esperar até nascer... Quem sabe não dou a sorte de morrer no parto?” Mas o pequeno bebê foi crescendo dentro de Juliete. Era um menino. O enxoval ia sendo preparado e ela começou a sonhar com aquela criança: como seria sua face, seus cabelos, com quantos anos começaria a andar. E se puxasse a personalidade do pai? Juliete tinha que estar lá, acompanhar tudo de perto. Não poderia deixar um “mini-Carlos psicopata” solto por aí.

Na verdade, Juliete recebia de volta o chamado da vida e da responsabilidade primitiva de ser mãe. E do meio das cinzas, da dor e da morte, levantou-se não uma fênix, mas a leoa que existe dentro de cada mãe. Juliete sobreviveu. O menino também, apesar do parto pré-maturo e das inúmeras intercorrências médicas. E formaram uma linda família feliz, com todos os problemas e loucuras (no bom sentido) de uma família mais que tradicional.

É claro que um dia o menino perguntou pelo pai. Juliete queria morrer de novo. Sabia que um dia ele ia fazer essa pergunta. Mas tinha que ser agora? Não estava preparada. A avó, com sua singela sabedoria ajudou. Nessas horas os contos de fada são um importante instrumento lúdico para os pequenos, que ainda não estão preparados para as atrocidades da vida: “seu pai virou uma linda estrelinha e agora está lá no céu. Quando formos para o sítio no fim de semana, longe das luzes da cidade, você vai vê-lo brilhar, lindamente”. E o menino saiu feliz e contente, ansioso para ver o seu pai, lá no céu das estrelas. Uma história do jeito que aquele menino merecia. Juliete ficou preocupada: “Mas mãe?”. “Calma, com o tempo tudo se ajeita, você vai ver. A vida se encarrega, Juliete”.

terça-feira, 21 de março de 2017

“A culpa é sua” - A primeira consulta ao terapeuta

Quem já passou por terapia sabe o quanto é difícil chegar à primeira consulta. Você tem que vencer o seu próprio preconceito e o dos outros. E parece à princípio, devido à nossa ignorância, que estamos admitindo que não estamos dando conta de nós mesmos. Principalmente se a pessoa sempre foi considerada uma boa moça, ajuizada, certinha, como eu. Então se vê invadida por pensamentos: “Justo eu que sempre fui tão dona de mim, tão equilibrada, responsável. Como posso não estar dando conta dos meus sentimentos a ponto de o meu corpo gritar por socorro e não mais obedecer aos meus comandos?”. 

Nossa, isso que é arrogância. A gente pensa que é uma máquina que liga e desliga, que faz o que quer, que consegue passar por todas as adversidades da vida sem ajuda.  Ainda bem que tem o terapeuta para nos fazer baixar a bola de nos acharmos semideuses.

Bom, depois de vencer a batalha interna, você toca a campainha, ou como eu, bate na porta. Pronta para enfrentar a sessão-tortura em que você se vê obrigado a se abrir para um completo estranho, falar dos seus mais profundos sentimentos, derramar muitas lágrimas e ainda pagar (caro) por isso. Olhando assim, chega a ser cômico se não fosse trágico.

Mas a pior parte ainda não chegou. Sem saber muito por onde começar, você escolhe de onde vai partir e passa a descrever os seus problemas, tentando defender a si mesmo, às pessoas que o machucaram (afinal, temos que considerar os outros pontos de vista, pensamos). A gente se justifica e praticamente quer dar a resposta para o terapeuta. “Afinal, isso não tem solução, o que é que eu estou fazendo aqui?”. Coitado do terapeuta, haja paciência.

Mas o profissional não se abala. Está acostumado a pessoas que estão completamente perdidas, dentro de um labirinto, sem saber onde é a saída. E ao invés de colo, aconchego e palavras frívolas motivacionais para amenizar todo o nosso sofrimento, vem o baque. Aquela frase que você não esperava nunca ouvir, pelo menos não de quem está ali sendo pago para o ajudar. Quanta audácia, frieza, incompreensão, pensamos... Ele simplesmente diz: “A culpa é sua”. “Minha? Como assim?”. Eu venho aqui falar de todas as injustiças e adversidades da vida, e vem essa pessoa que não sabe nada sobre mim dizer que eu sou a culpada.


É duro de engolir. Você passa por tudo o que passa crente que é a vítima de tudo, e o veredicto é: “culpado!”. Nessa hora a gente pensa em nunca mais voltar. E a verdade é que o terapeuta corre mesmo o risco de perder o cliente. Mas ele tem que ser duro, faz isso por ética e amor à sua profissão. Para nos fazer entender que somos responsáveis pelas nossas escolhas, por aquilo que permitimos que façam conosco, por preferirmos fingir que não estamos vendo o óbvio e assim nos enganar. Não fazemos por maldade, às vezes acreditamos que não temos opção mesmo. Mas apenas adiamos a inevitável descoberta de que o caminho que optamos por trilhar, se tivéssemos olhado com mais atenção, sem medo de mudar de rumo, de direção, teríamos visto que não era bem o caminho que desejávamos. Pelo menos, não queríamos sofrer as consequências dessa rota que trilhamos. Então por que fomos por lá?

É, não é assim tão simplório. Quando se tratam de emoções humanas, transtornos, doenças psíquicas tudo é muito complexo. Mas o que quero compartilhar aqui é a experiência de adquirir esse novo olhar, passar a ver as coisas por um outro ponto de vista: o de saber que muitas vezes a dor é inevitável e o que fazemos é simplesmente adiá-la, mas esse adiamento torna o sofrimento ainda mais intenso, por vezes, quase insuportável. Nos tornamos, sem querer, sabotadores de nós mesmos.

domingo, 19 de março de 2017

O Apartamento

Vou me arriscar aqui a falar de um assunto que pouco entendo: cinema. Então, perdoem-me os cinéfilos caso eu fale alguma besteira. Porque o mais importante aqui não é a precisão dos conceitos e termos utilizados, mas as emoções, foco principal deste blog.


O filme iraniano “O Apartamento” ganhou o Oscar 2017 como melhor filme estrangeiro. Para nós, acostumados aos filmes Hollywodianos, poderíamos achar que é um filme monótono. Talvez muitos durmam antes de chegar ao final. Mas quem disse que toda produção artística ou cultural tem que ser legal? Para ser considerada uma obra de arte, de fato, penso que o produto cultural deve nos levar a uma reflexão, mexer com a profundidade dos nossos sentidos, direções e posicionamento sobre o mundo.

“O Apartamento” é um filme assim. Que revela com sutileza as diferenças e complexidades culturais do Irã frente à sociedade ocidental, principalmente com relação ao lugar da mulher e ao tratamento dado a ela na sociedade. No filme, o personagem Emad (Shahab Hosseini) é um professor e ator amador, que se vê obrigado a buscar um novo apartamento depois que o edifício em que morava quase desabou. Mas quando consegue emprestado de um amigo outro lugar para ficar, a esposa Rana (Taraneh Alidoosti) é estuprada e violentada brutalmente por um homem desconhecido. Numa sociedade em que a honra é vital para o homem, o marido sente-se tão violentado quanto à própria esposa e busca vingança.

Pois bem, inicialmente fiquei mesmo presa a seguir a trama com atenção procurando entender o silêncio que muitas vezes diz tudo no filme, como o estupro acontecido, mas que nunca é pronunciado; as metáforas utilizadas, a casa desabando, as rachaduras na parede representando o relacionamento do casal; as contradições do protagonista, que tenta ser moderno na sua vida profissional, mas continua arraigado às tradições e ao conceito de honra masculina acima dos sentimentos de sua mulher.


Mas depois de digerir o filme por um ou dois dias, comecei a focar não mais nas diferenças entre as nossas sociedades, mas nas semelhanças. No machismo que ainda permeia fortemente a nossa sociedade. Mesmo com todos os avanços e conquistas femininas, uma mulher quando é estuprada é muitas vezes responsabilizada. Se não criminalmente, pelas falas maldosas das pessoas que comentam sobre os trajes curtos, sobre a hora da noite, sobre a conduta indecente, ou que “dava mole” para todo mundo.


Indo mais a fundo, vamos ao caso recente que teve repercussão nacional e internacional de Eliza Samudio, que possivelmente foi estrangulada, morta, esquartejada e seus restos mortais dados a comer por cães da raça Rottweiler. Eliza teve um filho do então famoso jogador de futebol, goleiro Bruno. E sua morte violenta e trágica, ao que tudo indica, ocorreu porque ela exigiu reconhecimento de paternidade e pensão do jogador. E quantas pessoas disseram: “Também, foi dar o golpe da barriga, é isso que dá!”. Como se a atitude da moça justificasse sua morte trágica e brutal. Como se ela tivesse feito o filho sozinha e o homem não tivesse a responsabilidade de evitar. “Ah, mas mulher quando quer, dá um jeito de fazer o filho e dar o golpe...”, dizem. Mas não existe camisinha? “Ah, o pobre homem estava bêbado demais para se lembrar”. Ou “excitado demais”. Ou “quem tem que se prevenir é a mulher, isso é papel dela”. Barbaridades que se dizem não só no Brasil, mas mundo afora.   

Mudando o ângulo do filme, pensando agora no relacionamento conjugal, no afastamento do homem quando sua mulher mais precisa, talvez um misto de repulsa por ter sido tocada por outro homem e ao mesmo tempo por considerar sua dor maior do que a da própria vítima. Será que isso também não acontece por aqui num caso de estupro? Ou até mesmo de uma enfermidade, como câncer, depressão, tetraplegia ou qualquer outro infortúnio da vida? Às vezes até mesmo a chegada de um bebê, um momento que era para ser tão feliz, mas que incrivelmente vejo levar à separação de casais não emocionalmente preparados para o turbilhão se sentimentos novos que vão enfrentar. E aqui não falo mais só da responsabilidade do homem, mas também da mulher que se afasta, que foge, que não apoia, até mesmo um caso banal, como um marido desempregado.

Como está escrito no livro de Eclesiastes da Bíblia: “Não há nada novo debaixo do sol”. As complexidades dos relacionamentos humanos, os sentimentos, as traições, tudo se assemelha por milênios, de geração em geração, de nação a nação. Podemos nos enganar com a modernidade, com as conquistas (não as desmereço nem digo que não sejam legítimas). Mas viremos a lente da câmera para o outro lado: somos tão diferentes assim de nossos antepassados? De pessoas de outras culturas? Alguns sentimentos e pecados humanos parecem que são primitivos, vou me arriscar a dizer, quem sabe, universais.


   

sábado, 18 de março de 2017

Desilusão – A síndrome da Cinderela

A velha senhora, nos altos de seus 87 anos, já se sentindo mais perto da morte, disse à sua neta, com o tom direto e experiente que têm os idosos: “Ontem estava escrevendo sobre a sua trajetória, e percebi que foi muito bem-sucedida. Mas você não deu sorte no casamento. Não se case mais”.

A jovem disfarçou, mas a fala da avó foi como um soco na boca do estômago. Aos 33 anos, já havia casado duas vezes, tinha uma filha de 4 anos, e agora um companheiro com quem vivia por um ano e já enfrentava problemas conjugais conhecidos pela família. Num ato desesperado, tentou argumentar: “Mas, vó, a senhora também não deu sorte com o meu avô. Ele era alcoólatra e a senhora se separou dele porque ele jogou um liquidificador no seu rosto! Dez anos de sofrimento, mas a senhora não deixou de tentar. Teve outros namorados até se casar de novo”. Ao que a senhora replicou: “É, mas dei sorte com o novo marido. Desde o início, ele deixou claro que não assumiria meus cinco filhos, tive que ter dois empregos e depois nos casamos com separação total de bens. Mas, ao longo dos anos, posso dizer que o falecido foi um bom companheiro para mim”.

Depois de um tempo de conversa com a avó, o inevitável aconteceu. Pensamentos invadiam a mente da jovem, fantasmas de seus casamentos fracassados, das juras de amor no altar, dos sonhos e promessas de felicidade eterna. Parecia agora que só restavam retalhos, dor e decepção. Afinal até a filha ela tinha que dividir com o pai. O seu castelo, a casa construída com tanto esmero, tinha sido alugado para acomodar uma vida mais prática à mulher divorciada, que precisava cuidar de tudo sozinha além de trabalhar como sempre fez. Fora isso, a casa era grande demais, carregada de lembranças e sonhos que não se concretizaram. Não queria morar lá.


Mas então, era este o fim? Viver a dor, trabalhar, cuidar da filha e seguir em frente? Sem mais espaço para o amor e novos sonhos de família? Afinal, deu errado duas vezes. Quem se arriscaria de novo? Eu não sei se me arriscaria, muito menos essa jovem. Mas certo é que somos criadas para esperar nosso príncipe encantado, que irá nos salvar da nossa vida sofrida de Cinderela. Esperamos apoio, paternalismo, cuidado. Mas o mundo agora está bem diferente. Ou sempre foi. Nunca houve príncipe encantado. Mentiram para nós. Sempre tivemos que cuidar de nós mesmas. Sempre fomos responsáveis pela nossa própria felicidade. E quem disse que não podemos tentar até cansar? Até acertar? Ou para sempre fracassar, mas morrer tentando? Tentando ser feliz, casando-se ou ficando solteira. Divorciada ou livre para amar. Para se amar.

Pois a velha senhora, no seu balanço da vida, tentava omitir o óbvio: sua vida também não foi fácil. Com cinco filhos para criar, o Juizado sugeriu que todas as crianças fossem levadas para a antiga Febem. A consideravam muito jovem para conseguir criar os filhos, quase todos com um a dois anos de diferença apenas. Após muito argumentar, ela conseguiu a chance de provar que era capaz sim. No prazo dado de um mês, ela cumpriu a condição para ficar com as crianças. Arrumou um emprego e matriculou todos na escola.

“É, vó, faz parte da vida. São as coisas que a gente não escolhe. Não depende da gente. Não podemos evitar a decepção. Ela acontece. Mas precisamos de coragem para enfrentar e prosseguir”. E assim a jovem rejeitou o conselho da experiente e amorosa avó, que apenas tentava evitar que ela topasse de novo com mais sofrimento. Preocupação legítima. Mas sofrer, quem pode evitar? Só se escolher deixar de viver e apenas vegetar.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Borboletas Azuis - O Equilíbrio

Conta a história que havia um linda e delicada borboleta-azul que era muito comum na década de 70, no sul da Inglaterra. Ela era admirada e, portanto, desejada. E, quando o homem deseja, ele encarcera. Chamam de colecionadores. Ou, dominadores. Ciumentos. Pessoas que amam demais.


Não bastasse isso, a borboleta-azul tinha mais um problema: para se reproduzir, ela dependia de uma babá para criar seus filhotes, uma formiga especial, uma formiga vermelha. A larva da borboleta-azul é incrivelmente criada por essa formiga. Coisas lindas e inexplicáveis da chamada Natureza.

O ser humano também é um ser social, que não foi feito para viver sozinho. Mas é o que tem acontecido na atual selva de concreto, nas grandes cidades, em que cada um corre para viver a sua vida, o máximo que puder, de preferência recorrendo a todos os tipos de artifícios para manter-se sempre jovem, num processo ilusório, como se pudesse ficar mais longe da morte.

Mas voltemos à borboleta. Para viver, portanto, a borboleta-azul dependia dessa especial formiga vermelha, que começou a ter problemas quando houve uma infestação de coelhos selvagens na região. Então, o homem teve uma brilhante ideia para evitar que a população saísse massacrando os coelhos: “vamos infectar os coelhos com um vírus que vai deixar os coelhos fraquinhos para os seus predadores e eles também vão ter mais dificuldade para se reproduzir”. Já viu alguém assim, cheio de boas intenções? Tentando te ajudar, mas na verdade só te deixando mais fraco?

Pois bem, os coelhos morreram e, com isso, a grama passou a crescer muito e a terra ficou mais fria e as formigas tinham dificuldades para comer aquela grama alta. Ninguém dava nada pelas formigas vermelhas, mas eram elas que permitiam o lindo cenário das borboletas azuis voando baixo pelo céu. Quantas vezes o ser humano julga apenas a aparência e não consegue entender que a borboleta-azul só existe por causa de uma formiga vermelha. Ou que aquela grande empresa depende de pessoas simples, invisíveis, números em meio a uma multidão. Que são pessoas sujas nas ruas, que catam o nosso lixo, para reciclagem ou não, que permitem que vivamos em lugares sem pragas, ratos e baratas. Milhões de seres invisíveis em meio a uma sociedade onde todos (ou quase todos) buscam os seus cinco minutos de fama.

Mas onde estavam as borboletas mesmo? Ah, sim, a história. Pois bem, sem as formigas vermelhas especiais, as lindas e admiradas borboletas-azuis ficaram sem suas babás. E chegaram a ser declaradas extintas. Como o ser humano tem a terrível capacidade de matar aquilo que tanto ama, como uma criança que não sabe ainda amar um pequeno pintinho e o aperta demais. E o sufoca. Esses somos nós. Ou pelo menos aqueles que lutamos para não sermos. Pessoas que matam por amar demais, por não saber como lidar com situações, por não buscar o conhecimento, por negar a liberdade ao objeto amado.

Assim como no caso das borboletas-azuis, o equilíbrio é a chave para a felicidade e o combate à depressão. Pensemos nisso!