segunda-feira, 4 de julho de 2022

Dores de Parto

Quero fugir. Mas como posso fugir de mim mesma? Penso numa casa de campo. Bolo fresco com cheiro do aconchego de quem já não está mais aqui para mim.

Vejo-me com dores de parto. Dores pelas quais anseio agora mais do que tudo. Porque as dores de parto nos transportam para um outro lugar. Para aquele momento em que nada mais importa além de colocar um filho no mundo.

Vejo-me de cócoras, no meio do mato, segurando-me e esforçando-me na esperança de uma realização. De uma concretização de algo que transforme as minhas dores em alegria. Como eu desejo essa dor. Como eu desejo parir.

 

Parir os sonhos represados pelos muros de concreto da cidade, que interrompem gestações e partos no lugar que é só meu. Arranca meus filhos e me deixam um vazio materno. O vazio da desesperança. Desespero, dor, mas não são as dores de parto. Então para onde vou fugir? Como posso fugir de mim mesma?

O relógio toca. É hora de despertar para mais um dia em que tudo se repete. O tempo passa sem que passemos por ele. Tentamos alcançá-lo, convencê-lo a nos levar e mostrar nosso valor, mas ele olha para trás indiferente. O tempo não se comove. Ele não espera. Só há um momento em que ele para, para assistir. O momento em que ele vê uma mulher com dores de parto. Ela está a gerar. Está prestes a dar a vida. A sua vida. A colocar o que a incomoda, o que dói e o que ama para fora de si, e tudo o que ela deseja nesse momento é expelir. Expelir de seu ventre a sua grande obra. Este é o seu grande ato. Uma plateia vazia não contempla a beleza desse ato de profunda dor e alegria.

Como eu quero fugir. Fugir para o meu grande ato solitário do teatro da vida. Fugir da dor sem sentido e sem razão para a qual o tempo não olha nem se importa. Eu quero as dores de parto. Eu quero parir. Neste lugar solitário e solidário para onde posso fugir de mim mesma e me encontrar. Em que o tempo vai finalmente parar e me olhar.


 

*Crédito imagens: Videoclipe música Maria, Maria, de Milton Nascimento.




domingo, 20 de fevereiro de 2022

A Hora do Adeus


Ás vezes pode ser difícil deixar coisas para trás. Uma casa que você construiu. O sonho da família que você planejava que fosse maior. Uma carreira. Anos de estudo. Pode parecer contraditório deixar coisas para trás para seguir adiante. Principalmente quando estamos em um relacionamento abusivo. Recomeçar. Recomeçar consigo mesma. Deixar as bengalas que te sustentaram por tanto tempo. Parar de sobreviver e começar a viver. Viver uma vida realmente feliz, não apoiada em alguém, mas apoiada em si própria.

Eu sou o meu centro agora. Pode ser difícil caminhar só, mas também é extremamente libertador. Liberdade. Palavra tão simples e que usamos genericamente, porém pode ser que nunca a tenhamos experimentamos de fato. Ser livre do seu antigo “eu” para abrir espaço para um novo “eu” cheio de potencial. Potencial para um voo livre, um voo solo.

Um voo solo pode parecer assustador de início. Mas é incrível quando você vê o céu azul e olha para o mundo lá embaixo e sente que ele é todo seu. Que há um mundo de possibilidades esperando por você. Por coisas que você queria fazer e sempre colocava em segundo plano por alguém.

É difícil se livrar da dependência emocional. Algumas pessoas nunca se libertam porque somos viciadas e não percebemos. Achamos que somos tão independentes, quando na verdade estávamos presas em nosso próprio cárcere interior.

Agora vejo tudo com clareza. Então, sim, estou pronta para dizer adeus.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

A carta

Há tantas coisas que eu queria te dizer. Tantas que eu queria perguntar. Mas você não está aqui para responder. E nunca estará. Tanta dor e sofrimento invadem o meu ser. Não há palavras que possam explicar.

O pranto abafa os gritos e gemidos de dor e a imensa destruição deste caos que me restou. Não há nada além daqui. 

Estou de luto. De luto pela morte de um amor por aquilo que não existia. Era um alter-ego. Quão duro é se descobrir apaixonada por um alter-ego. 

Como eu queria voltar no tempo para nunca ter conhecido essa dor. Mas o tempo é um rio que não volta, mas nos deixa as memórias. Eu não queria essas memórias. Ó, rio, por que não levas também essas memórias? Queria apenas esquecer.



segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Fênix

A festa acaba e a dor invade a minha alma. E agora a fumaça de um cigarro também. No final das contas, tudo o que fiz foi sobreviver a mais um dia.

A escura madrugada reflete toda dor que há em mim. Na tentativa de contê-la e controlá-la para a manhã que breve chegará para mais um dia de sobrevivência. Como suportar a dor dos sonhos e promessas quebradas? Das juras de amor transformadas em uma tentativa de um golpe mortal? Ele não conseguiu me matar fisicamente, mas matou uma parte dentro de mim. Eu não vi quão profunda era a escuridão dentro dele. Estava cega de amor. Porque eu sou toda amor. Ou era. Talvez ele tenha tirado isso de mim também.

O meu reflexo no espelho me diz que estou bem. Que vou ficar bem. Então tento acreditar no mágico espelho que só capta o meu exterior. Mesmo sabendo que uma parte de mim está em trevas, sobrevivo.



Sobrevivência é um conceito instintivo dos seres humanos e dos animais. Seria eu um animal? Quero ser uma mitológica fênix que ressurge das cinzas a cada morte. Seria isso possível? Nossa alma pode ressurgir? Não sei. Mas sobrevivo.

Está tarde. O amanhã chegará com um novo pedido de sobrevivência. E eu estarei lá, na hora marcada. Esperando sobreviver a mais um dia até que eu não precise mais me olhar no espelho para acreditar. Não adianta entender o passado. Só importa que eu sobrevivi. Só importa a fênix.



O Suicídio do Pequeno Príncipe

(Alerta de Spoiler)

Muito se fala sobre o consagrado livro “O Pequeno Príncipe”. Pessoas, postam, com frequência, frases poéticas do livro em suas redes sociais. Mas o que eu não compreendo é por que não se vê quase nada na mídia sobre a complexidade desse livro e como ele trata de forma tão bela e romântica a depressão e o suicídio.

Sim, o Pequeno Príncipe se suicida. Percebo que muitas pessoas parecem nunca ter lido o livro todo e enfeitam até mesmo o quarto de seus lindos bebês com ilustrações e frases do Pequeno Príncipe. Afinal tudo parece tão poético e infantil.



É claro que o livro pode ser lido para crianças de uma forma lúdica, mas elas não compreenderão todas as sutilezas descritas no livro bem como de personagens como a “raposa”, a “serpente” e o “aviador”, com o final “retorno” do Pequeno Príncipe ao seu Planeta.

Antoine de Saint-Exupéry, autor do livro, era um aviador experiente que morreu numa missão da força aérea francesa, em 1944, pouco tempo depois de o livro ser publicado em 1943. Até hoje sua morte permanece um mistério. Teria ele sido abatido por inimigos ou se suicidado?

O suicídio, consciente ou não, é possível mas nunca saberemos, já que até mesmo seu corpo nunca foi encontrado. Simplesmente desapareceu como o Pequeno Príncipe, alter-ego do autor. Em 2004 foram localizados destroços da aeronave, mas não restos humanos. Um romântico mistério que acabou por deixar o livro ainda mais cativante, embora trágico.

Enfim, o romantismo é a Era do autossacrifício e do suicídio, como o do Pequeno Príncipe por “sua rosa”. Não há julgamentos. A depressão e o suicídio podem ser retratados de forma poética, por que não? Mas o conhecimento é necessário para que esses temas não passem desapercebidos pela sociedade. Principalmente, por psicólogos e pedagogos, além da devida e cuidadosa mediação do livro, classificado como infantil, para as crianças.

Afinal, é com o veneno da “serpente“ que o Pequeno Príncipe retorna ao seu Planeta para cuidar da sua flor, com a garantia, para o Piloto, de que sempre que ele olhasse para as estrelas escutaria sua doce risada...

sábado, 22 de janeiro de 2022

Depressão na Pandemia

Em tempos de terror em meio a uma pandemia mundial, já passou da hora de falarmos sobre depressão e suicídio, inclusive entre crianças.

A depressão é uma das doenças que mais cresce em todo mundo e desnuda a incapacidade do nosso governo e da sociedade em lidar com os problemas psiquiátricos e psicológicos. Na rede pública de nosso país, o atendimento é precário, bem como na rede particular associada a planos de saúde. O tratamento é caro, impossibilitando a maior parte da população de ter a atendimento e cuidados adequados.


Nossa sociedade encontra-se também totalmente despreparada e mal informada para lidar com a depressão, o que dificulta o tratamento precoce. Recentemente estava junto a um grupo de pessoas que relatava o suicídio que tinha acontecido nas redondezas, pouco tempo antes. Uma jovem havia se jogado do sexto andar de seu prédio. O que me chamou a atenção foi o que as pessoas diziam: “uma médica, tão jovem e tão bonita”. Percebam, a beleza, juventude e o sucesso profissional parecem ser antagônicos à depressão e ao suicídio.

Isso dificulta ainda mais o apoio a pessoas que estão sofrendo com a depressão. Precisamos urgentemente esclarecer e desmitificar as questões que cercam essa doença e o ato de desespero em tentar eliminar a dor profunda e insuportável.

Ninguém gosta de estar perto da dor. Lembro-me de quando saía com minha filha ainda bebê e como é difícil para as pessoas suportar o choro e os berros de uma criança. Logo ficam agitadas, se oferecem para ajudar, ainda que saibam claramente que a mãe está atendendo às necessidades do bebê e não necessita de ajuda.

Vivemos em uma sociedade em que o choro e a dor devem ser enclausurados no recinto de quem chora. Não devem ser expostos porque é sinal de fraqueza. Como se a vida não fosse composta de incontáveis momentos de dor.

Acrescenta-se a isso o fato de que a depressão tem um componente genético e não se trata de quem tem problemas maiores ou menores. Não devemos comparar as dores. Dor é dor. Não importam as circunstâncias de quem está deprimido. Muitas pessoas sem o tratamento adequado sequer sabem o motivo da sua dor. Sem falar que várias doenças e remédios podem ter a depressão como efeito colateral. Ou seja, um olhar mais atento e menos individualista pode salvar uma vida.

Precisamos ainda desassociar a depressão da religião, no sentido de crenças baseadas em “ausência de fé em Deus”, “ações demoníacas” ou que “o suicida é fraco e vai para o inferno”. Também não adianta dizer para o depressivo que ele é “preguiçoso”, “incapaz”, “tem tudo na vida e não valoriza”, “olha como o céu está bonito hoje” e coisas do tipo.

Parece que ainda vivemos na escuridão de uma caverna completamente distante do conhecimento quando tratam-se de doenças e transtornos psiquiátricos. Até quando vamos escolher continuar na escuridão? Quando é que finalmente vamos sair da caverna em busca da luz do conhecimento e ajudar a salvar vidas?