quinta-feira, 30 de março de 2017

Como eu era antes de você (alerta de Spoiler)


Se você assistiu ao filme “Como eu era antes de você” (2016), baseado no livro best-seller homônimo de 2012, deve ter chorado horrores. Pelo menos eu chorei, e muito. Claro, a gente tende a preferir finais felizes. E o final desse filme é bem trágico. Will, um rapaz rico, amante de esportes radicais, ficou tetraplégico como consequência de um acidente de trânsito. Depressivo, ele adotou o cinismo como modo de vida, até conhecer finalmente o seu grande amor, Louisa. Uma jovem pobre, divertida, carismática, com gosto duvidoso para roupas, para não dizer cafona. Louisa, que é contratada como cuidadora de Will, arrebata o coração partido e amargo do rapaz, devolve a ele um pouco da alegria de viver, mas, mais do que isso: dá a ele uma nova perspectiva sobre a vida, um novo ângulo, que o transforma em uma pessoa melhor.

Tudo vai muito bem, um romance típico, deliciosamente açucarado, não fosse pelo final audacioso, que trata de um assunto bastante polêmico e difícil: o suicídio assistido. Will, antes de conhecer Louisa, já tinha um trato com seus pais de que, caso ele não apresentasse melhora em sua condição precária e sofrida de saúde, ele se submeteria a um procedimento na Suíça, em que o paciente recebe ajuda para morrer. O inesperado no universo romântico, mas totalmente crível no mundo real, é que Will não muda sua decisão mesmo depois de se apaixonar por Louisa. Ele entende que seu sofrimento não vai cessar ainda que a moça amenize a dor da sua precária vida. E acredita que também a estaria mantendo presa, tudo o que não quer se fazer com quem se ama de verdade. Libertar é um ato de amor, dos mais profundos e difíceis de fazer.

Certo é que pelo menos quatro países já legalizaram o suicídio assistido, geralmente sob condições rígidas: de que o paciente esteja em condição médica irreversível e esteja passando por um sofrimento mental ou físico constante que não possa ser aliviado. Diferentemente da eutanásia, no suicídio assistido, o paciente precisa estar totalmente consciente e, em alguns países, exige-se até que o paciente tenha condições de levar à boca, sem ajuda, o coquetel mortal.

Enfim, o filme me fez pensar. Justo eu que sou totalmente a favor da vida, que já passei pela depressão e pelo desejo de não querer mais viver, mas lutei, relutei em não ficar na cama, chorava, gritava, enxugava as lágrimas. Agarrei-me com todas as forças à minha grande razão de viver, meu pequeno grande anjo de cachos dourados. Convivia com a completa incompreensão dos que estavam à minha volta sobre a doença, taxada como fraqueza, frescura. “Tem tanta gente em situação pior”, as pessoas pensam. Tem mesmo, e daí? Isso não muda a condição de quem está sofrendo.

Também sempre fui contra a eutanásia. A pessoa está em coma absoluto por anos, mas vai que ela volta à vida? Não aparecem aqueles casos milagrosos nos jornais? Mas o amadurecimento vai mudando um pouco a nossa forma de pensar e colocando dúvidas na nossa cabeça, antes totalmente convicta de opiniões resolutas típica dos jovens. É justo a evolução da medicina nos prender a esta vida como vegetais? É fazendo a eutanásia que nos colocamos no lugar de Deus, decidindo a morte de uma pessoa, ou é mantendo alguém vivo artificialmente por aparelhos, sem os quais o paciente não sobreviveria, é que nos tornamos divinos prolongando a vida já terminada, apenas um corpo com órgãos vitais funcionando? E quando a medicina estiver tão evoluída que puder prolongar essa sobrevida quase que indefinidamente?


Nossa, quanta coisa para pensar... Envolvem crenças morais, éticas, religiosas, sem dúvida. Decidir no campo individual pode ser mais fácil, mas quando se trata de mudar a legislação de um país, as coisas ficam bem mais complicadas. Principalmente se a gente tem que participar dessas decisões. E elas chegam dia a dia, o mundo fica cada vez mais complexo porque querem trazer à tona coisas que sempre foram feitas desde que o mundo é mundo e ninguém pedia (ou pede) permissão ainda que sofresse (ou sofra) consequências. Não são leis que impedem alguém quando se decide sobre algo tão sério: libertar matando o seu ente querido, ou simplesmente deixando morrer; ajudar alguém a dar cabo de uma vida sem perspectiva alguma de futuro, um paciente terminal que vai morrer de forma lenta e dolorosa porque a medicina avançou muito em manter essa vida de dor.

Como é difícil jogar luz nessas questões e ter que decidir como sociedade. Sinceramente, não sei se estaria pronta. Confesso um certo alívio pelo Brasil estar longe de realizar um plebiscito em que eu teria que ter uma opinião. Às vezes é muito bom não ter opinião. Mas é bom saber também que tem lugares em que as pessoas podem decidir sobre o prolongamento ou não da vida. Saber que tem países que tiveram coragem de discutir o assunto e garantir os direitos individuais acima das crenças coletivas. Porque por mais que possamos amar a vida, por mais que haja pessoas fantásticas, com talentos incríveis que se mantiveram motivadas mesmo com doenças degenerativas, tetraplegia, câncer terminal a querer respirar até o último sopro de vida... Não podemos julgar quem não encontrou uma grande motivação, que não tem os mesmos dons e talentos e que é obrigado a conviver com dores físicas crônicas e quase insuportáveis. Quem somos nós para julgar? Será que temos esse poder de decidir por alguém? Não faço a menor ideia... E me arrisco a dizer que, assim como você, prefiro não pensar muito sobre o assunto. 

sábado, 25 de março de 2017

Juliete e o psicopata


Juliete encontrou o grande amor da sua vida. Pelo menos era o que ela pensava. O primeiro encontro com Carlos foi ocasional, em um restaurante próximo aos locais de trabalho de ambos. Seguiram-se vários encontros e desencontros nesse restaurante, onde Carlos investia para conquistar o coração de Juliete. Até que seis meses depois, ela finalmente se rendeu aos encantos daquele rapaz envolvente, de descendência alemã.

Juliete era uma menina romântica, como quase todas da idade dela: tinha apenas 18 anos. Carlos era um homem mais experiente, no auge dos seus 30 anos de idade. Enfim, começaram a namorar. Carlos buscava Juliete todos os dias de carro para levá-la ao trabalho. 

O relacionamento seguia sem muitos percalços a não ser por algumas diferenças de objetivo de vida: Juliete era jovem, queria estudar, terminar a faculdade; Carlos já estava com 30 anos, queria constituir família, ter filhos, casa, cachorro e tudo mais. Assim Juliete seguia enrolando Carlos, sempre trabalhando e estudando muito. Queria ser independente, “ser alguém na vida”, pensava. Não queria ser apenas dona de casa. Mas sempre que possível os dois se encontravam, trocavam juras de amor e fidelidade eterna. E como todos os dias, durante o tempo de namoro, Carlos pegava Juliete em casa e a deixava no trabalho.

Carlos trabalhava em uma empresa de logística e transporte de cargas. Juliete estudava análise de sistemas, mas tinha o sonho de um dia se tornar webdesigner. No final dos anos 90 a internet estava em seu auge, o preço das ações das empresas desse setor estava no topo, e essa era uma profissão muito cobiçada. Assim Juliete dava duro e se esforçava. E Carlos, sem mudar de emprego ou ser promovido, comprava seu carro do ano. Depois, comprou uma moto de última geração. Mas nada disso causava estranheza em Juliete. Ou ela preferia não ver sinais de estranheza na vida e no comportamento de Carlos. Ela estava apaixonada, ele era tão carinhoso e dedicado. Por que se preocupar? Bobagem.

Carlos e Juliete eram um casal de namorados quase comum. Iam juntos ao cinema, shows, bares, mas os encontros familiares eram sempre na casa dela. Carlos dizia que tinha vindo de outra cidade e que seus pais já haviam falecido. Ele também oferecia bons jantares, presentes caros, coisas que seu salário não poderia comprar. Em troca, sem perceber, Juliete deixava-se iludir pelas mentiras e ser dominada: estava sempre cercada por um namorado que telefonava com frequência, a levava e a buscava no trabalho, sabia cada um de seus passos, seus amigos e conhecia todos com quem ela se relacionava. Nunca saia de casa sem o avisar e Carlos estava sempre atento à sua amada. “Quanto amor”, Juliete pensava. "Logo terminarei a faculdade e poderemos nos casar."

Mas antes de o planejamento perfeito de Juliete se concretizar, veio uma surpresa inesperada: ela estava grávida, de quatro meses. Como não tinha percebido antes? Óbvio, estava sempre tão focada em ser bem-sucedida profissionalmente, vivia viajando a trabalho, mal tinha tempo para si. E o tempo que sobrava, se dedicava ao Carlos. Mas estava certa de que a notícia não abalaria o relacionamento dos dois. Carlos implorava para ser pai, era seu grande sonho, como ele não poderia ficar feliz?

Juliete encheu-se de coragem e contou ao namorado a notícia do bebê não programado, mas tão esperado. Era uma segunda-feira de manhã. Os dois estavam em frente ao portão da casa dela. As grades brancas combinavam com o cenário amoroso em que Carlos se ajoelhava, beijava a barriga de sua amada e declarava: “finalmente, sou o homem mais feliz deste mundo!”

Na terça-feira, mais um dia de trabalho, Juliete, animada, aguardava Carlos à porta de sua casa, para levá-la ao trabalho. Mas pela primeira vez Carlos não apareceu. Juliete ficou preocupada e foi logo telefonar. Mas o telefone parecia inexistente. Bom, o jeito era ir de ônibus para o trabalho. Estava preocupada, mas tentava se confortar: “deve ter sido uma indisposição, quem sabe, comemorou a notícia do bebê até tarde, bebeu demais”.

Após o trabalho, Juliete foi à casa de Carlos, mas ele também não estava lá. As coisas estavam ficando esquisitas e quanto mais Juliete procurava, mais se via à beira de um ataque de nervos. Não tardaria, Juliete teria o maior choque de toda a sua vida. Carlos havia sumido da face da Terra! “Mas ele queria tanto ter um filho”... Não compreendia. Carlos tinha vendido a casa, o carro, a moto e tudo o que tinha. Ele literalmente sumiu do mapa, sem deixar rastros.

Mas a tragédia não terminaria por aí. Com o apoio da família, Juliete foi até a polícia, informou os números de documentos de Carlos, sua conta corrente, mas nada conferia. Era tudo falso. Carlos não existia. Ele nunca existiu. Nem mesmo amou Juliete sequer uma vez. Ele era um falsário, um psicopata, incapaz de formar laços afetivos. Durante os anos em que conviveu com Juliete, o tal Carlos administrava ao mesmo tempo, outras duas mulheres, que também mantinha sob o seu domínio, e tinha, ao que parece, outros três filhos.

Juliete quis morrer, quis matar, quis se entregar, queria arrancar simplesmente a dor enorme do peito de quem é enganada por um encantador de serpentes, um manipulador habilidoso, incomparável: psicopata. Carlos não existia. Anos de uma doce mentira. O que tinha sido real? Será que ela viveu realmente durante esse tempo com ele? Essas perguntas enchiam a cabeça de Juliete como um turbilhão de pensamentos que faziam a sua cabeça girar. O suicídio parecia o único caminho plausível.  

Até que algo se moveu dentro da barriga de Juliete. Ah, sim, o bebê. “Meu Deus, se eu me matar, vou matar uma criança inocente junto. Melhor esperar até nascer... Quem sabe não dou a sorte de morrer no parto?” Mas o pequeno bebê foi crescendo dentro de Juliete. Era um menino. O enxoval ia sendo preparado e ela começou a sonhar com aquela criança: como seria sua face, seus cabelos, com quantos anos começaria a andar. E se puxasse a personalidade do pai? Juliete tinha que estar lá, acompanhar tudo de perto. Não poderia deixar um “mini-Carlos psicopata” solto por aí.

Na verdade, Juliete recebia de volta o chamado da vida e da responsabilidade primitiva de ser mãe. E do meio das cinzas, da dor e da morte, levantou-se não uma fênix, mas a leoa que existe dentro de cada mãe. Juliete sobreviveu. O menino também, apesar do parto pré-maturo e das inúmeras intercorrências médicas. E formaram uma linda família feliz, com todos os problemas e loucuras (no bom sentido) de uma família mais que tradicional.

É claro que um dia o menino perguntou pelo pai. Juliete queria morrer de novo. Sabia que um dia ele ia fazer essa pergunta. Mas tinha que ser agora? Não estava preparada. A avó, com sua singela sabedoria ajudou. Nessas horas os contos de fada são um importante instrumento lúdico para os pequenos, que ainda não estão preparados para as atrocidades da vida: “seu pai virou uma linda estrelinha e agora está lá no céu. Quando formos para o sítio no fim de semana, longe das luzes da cidade, você vai vê-lo brilhar, lindamente”. E o menino saiu feliz e contente, ansioso para ver o seu pai, lá no céu das estrelas. Uma história do jeito que aquele menino merecia. Juliete ficou preocupada: “Mas mãe?”. “Calma, com o tempo tudo se ajeita, você vai ver. A vida se encarrega, Juliete”.

terça-feira, 21 de março de 2017

“A culpa é sua” - A primeira consulta ao terapeuta

Quem já passou por terapia sabe o quanto é difícil chegar à primeira consulta. Você tem que vencer o seu próprio preconceito e o dos outros. E parece à princípio, devido à nossa ignorância, que estamos admitindo que não estamos dando conta de nós mesmos. Principalmente se a pessoa sempre foi considerada uma boa moça, ajuizada, certinha, como eu. Então se vê invadida por pensamentos: “Justo eu que sempre fui tão dona de mim, tão equilibrada, responsável. Como posso não estar dando conta dos meus sentimentos a ponto de o meu corpo gritar por socorro e não mais obedecer aos meus comandos?”. 

Nossa, isso que é arrogância. A gente pensa que é uma máquina que liga e desliga, que faz o que quer, que consegue passar por todas as adversidades da vida sem ajuda.  Ainda bem que tem o terapeuta para nos fazer baixar a bola de nos acharmos semideuses.

Bom, depois de vencer a batalha interna, você toca a campainha, ou como eu, bate na porta. Pronta para enfrentar a sessão-tortura em que você se vê obrigado a se abrir para um completo estranho, falar dos seus mais profundos sentimentos, derramar muitas lágrimas e ainda pagar (caro) por isso. Olhando assim, chega a ser cômico se não fosse trágico.

Mas a pior parte ainda não chegou. Sem saber muito por onde começar, você escolhe de onde vai partir e passa a descrever os seus problemas, tentando defender a si mesmo, às pessoas que o machucaram (afinal, temos que considerar os outros pontos de vista, pensamos). A gente se justifica e praticamente quer dar a resposta para o terapeuta. “Afinal, isso não tem solução, o que é que eu estou fazendo aqui?”. Coitado do terapeuta, haja paciência.

Mas o profissional não se abala. Está acostumado a pessoas que estão completamente perdidas, dentro de um labirinto, sem saber onde é a saída. E ao invés de colo, aconchego e palavras frívolas motivacionais para amenizar todo o nosso sofrimento, vem o baque. Aquela frase que você não esperava nunca ouvir, pelo menos não de quem está ali sendo pago para o ajudar. Quanta audácia, frieza, incompreensão, pensamos... Ele simplesmente diz: “A culpa é sua”. “Minha? Como assim?”. Eu venho aqui falar de todas as injustiças e adversidades da vida, e vem essa pessoa que não sabe nada sobre mim dizer que eu sou a culpada.


É duro de engolir. Você passa por tudo o que passa crente que é a vítima de tudo, e o veredicto é: “culpado!”. Nessa hora a gente pensa em nunca mais voltar. E a verdade é que o terapeuta corre mesmo o risco de perder o cliente. Mas ele tem que ser duro, faz isso por ética e amor à sua profissão. Para nos fazer entender que somos responsáveis pelas nossas escolhas, por aquilo que permitimos que façam conosco, por preferirmos fingir que não estamos vendo o óbvio e assim nos enganar. Não fazemos por maldade, às vezes acreditamos que não temos opção mesmo. Mas apenas adiamos a inevitável descoberta de que o caminho que optamos por trilhar, se tivéssemos olhado com mais atenção, sem medo de mudar de rumo, de direção, teríamos visto que não era bem o caminho que desejávamos. Pelo menos, não queríamos sofrer as consequências dessa rota que trilhamos. Então por que fomos por lá?

É, não é assim tão simplório. Quando se tratam de emoções humanas, transtornos, doenças psíquicas tudo é muito complexo. Mas o que quero compartilhar aqui é a experiência de adquirir esse novo olhar, passar a ver as coisas por um outro ponto de vista: o de saber que muitas vezes a dor é inevitável e o que fazemos é simplesmente adiá-la, mas esse adiamento torna o sofrimento ainda mais intenso, por vezes, quase insuportável. Nos tornamos, sem querer, sabotadores de nós mesmos.

domingo, 19 de março de 2017

O Apartamento

Vou me arriscar aqui a falar de um assunto que pouco entendo: cinema. Então, perdoem-me os cinéfilos caso eu fale alguma besteira. Porque o mais importante aqui não é a precisão dos conceitos e termos utilizados, mas as emoções, foco principal deste blog.


O filme iraniano “O Apartamento” ganhou o Oscar 2017 como melhor filme estrangeiro. Para nós, acostumados aos filmes Hollywodianos, poderíamos achar que é um filme monótono. Talvez muitos durmam antes de chegar ao final. Mas quem disse que toda produção artística ou cultural tem que ser legal? Para ser considerada uma obra de arte, de fato, penso que o produto cultural deve nos levar a uma reflexão, mexer com a profundidade dos nossos sentidos, direções e posicionamento sobre o mundo.

“O Apartamento” é um filme assim. Que revela com sutileza as diferenças e complexidades culturais do Irã frente à sociedade ocidental, principalmente com relação ao lugar da mulher e ao tratamento dado a ela na sociedade. No filme, o personagem Emad (Shahab Hosseini) é um professor e ator amador, que se vê obrigado a buscar um novo apartamento depois que o edifício em que morava quase desabou. Mas quando consegue emprestado de um amigo outro lugar para ficar, a esposa Rana (Taraneh Alidoosti) é estuprada e violentada brutalmente por um homem desconhecido. Numa sociedade em que a honra é vital para o homem, o marido sente-se tão violentado quanto à própria esposa e busca vingança.

Pois bem, inicialmente fiquei mesmo presa a seguir a trama com atenção procurando entender o silêncio que muitas vezes diz tudo no filme, como o estupro acontecido, mas que nunca é pronunciado; as metáforas utilizadas, a casa desabando, as rachaduras na parede representando o relacionamento do casal; as contradições do protagonista, que tenta ser moderno na sua vida profissional, mas continua arraigado às tradições e ao conceito de honra masculina acima dos sentimentos de sua mulher.


Mas depois de digerir o filme por um ou dois dias, comecei a focar não mais nas diferenças entre as nossas sociedades, mas nas semelhanças. No machismo que ainda permeia fortemente a nossa sociedade. Mesmo com todos os avanços e conquistas femininas, uma mulher quando é estuprada é muitas vezes responsabilizada. Se não criminalmente, pelas falas maldosas das pessoas que comentam sobre os trajes curtos, sobre a hora da noite, sobre a conduta indecente, ou que “dava mole” para todo mundo.


Indo mais a fundo, vamos ao caso recente que teve repercussão nacional e internacional de Eliza Samudio, que possivelmente foi estrangulada, morta, esquartejada e seus restos mortais dados a comer por cães da raça Rottweiler. Eliza teve um filho do então famoso jogador de futebol, goleiro Bruno. E sua morte violenta e trágica, ao que tudo indica, ocorreu porque ela exigiu reconhecimento de paternidade e pensão do jogador. E quantas pessoas disseram: “Também, foi dar o golpe da barriga, é isso que dá!”. Como se a atitude da moça justificasse sua morte trágica e brutal. Como se ela tivesse feito o filho sozinha e o homem não tivesse a responsabilidade de evitar. “Ah, mas mulher quando quer, dá um jeito de fazer o filho e dar o golpe...”, dizem. Mas não existe camisinha? “Ah, o pobre homem estava bêbado demais para se lembrar”. Ou “excitado demais”. Ou “quem tem que se prevenir é a mulher, isso é papel dela”. Barbaridades que se dizem não só no Brasil, mas mundo afora.   

Mudando o ângulo do filme, pensando agora no relacionamento conjugal, no afastamento do homem quando sua mulher mais precisa, talvez um misto de repulsa por ter sido tocada por outro homem e ao mesmo tempo por considerar sua dor maior do que a da própria vítima. Será que isso também não acontece por aqui num caso de estupro? Ou até mesmo de uma enfermidade, como câncer, depressão, tetraplegia ou qualquer outro infortúnio da vida? Às vezes até mesmo a chegada de um bebê, um momento que era para ser tão feliz, mas que incrivelmente vejo levar à separação de casais não emocionalmente preparados para o turbilhão se sentimentos novos que vão enfrentar. E aqui não falo mais só da responsabilidade do homem, mas também da mulher que se afasta, que foge, que não apoia, até mesmo um caso banal, como um marido desempregado.

Como está escrito no livro de Eclesiastes da Bíblia: “Não há nada novo debaixo do sol”. As complexidades dos relacionamentos humanos, os sentimentos, as traições, tudo se assemelha por milênios, de geração em geração, de nação a nação. Podemos nos enganar com a modernidade, com as conquistas (não as desmereço nem digo que não sejam legítimas). Mas viremos a lente da câmera para o outro lado: somos tão diferentes assim de nossos antepassados? De pessoas de outras culturas? Alguns sentimentos e pecados humanos parecem que são primitivos, vou me arriscar a dizer, quem sabe, universais.


   

sábado, 18 de março de 2017

Desilusão – A síndrome da Cinderela

A velha senhora, nos altos de seus 87 anos, já se sentindo mais perto da morte, disse à sua neta, com o tom direto e experiente que têm os idosos: “Ontem estava escrevendo sobre a sua trajetória, e percebi que foi muito bem-sucedida. Mas você não deu sorte no casamento. Não se case mais”.

A jovem disfarçou, mas a fala da avó foi como um soco na boca do estômago. Aos 33 anos, já havia casado duas vezes, tinha uma filha de 4 anos, e agora um companheiro com quem vivia por um ano e já enfrentava problemas conjugais conhecidos pela família. Num ato desesperado, tentou argumentar: “Mas, vó, a senhora também não deu sorte com o meu avô. Ele era alcoólatra e a senhora se separou dele porque ele jogou um liquidificador no seu rosto! Dez anos de sofrimento, mas a senhora não deixou de tentar. Teve outros namorados até se casar de novo”. Ao que a senhora replicou: “É, mas dei sorte com o novo marido. Desde o início, ele deixou claro que não assumiria meus cinco filhos, tive que ter dois empregos e depois nos casamos com separação total de bens. Mas, ao longo dos anos, posso dizer que o falecido foi um bom companheiro para mim”.

Depois de um tempo de conversa com a avó, o inevitável aconteceu. Pensamentos invadiam a mente da jovem, fantasmas de seus casamentos fracassados, das juras de amor no altar, dos sonhos e promessas de felicidade eterna. Parecia agora que só restavam retalhos, dor e decepção. Afinal até a filha ela tinha que dividir com o pai. O seu castelo, a casa construída com tanto esmero, tinha sido alugado para acomodar uma vida mais prática à mulher divorciada, que precisava cuidar de tudo sozinha além de trabalhar como sempre fez. Fora isso, a casa era grande demais, carregada de lembranças e sonhos que não se concretizaram. Não queria morar lá.


Mas então, era este o fim? Viver a dor, trabalhar, cuidar da filha e seguir em frente? Sem mais espaço para o amor e novos sonhos de família? Afinal, deu errado duas vezes. Quem se arriscaria de novo? Eu não sei se me arriscaria, muito menos essa jovem. Mas certo é que somos criadas para esperar nosso príncipe encantado, que irá nos salvar da nossa vida sofrida de Cinderela. Esperamos apoio, paternalismo, cuidado. Mas o mundo agora está bem diferente. Ou sempre foi. Nunca houve príncipe encantado. Mentiram para nós. Sempre tivemos que cuidar de nós mesmas. Sempre fomos responsáveis pela nossa própria felicidade. E quem disse que não podemos tentar até cansar? Até acertar? Ou para sempre fracassar, mas morrer tentando? Tentando ser feliz, casando-se ou ficando solteira. Divorciada ou livre para amar. Para se amar.

Pois a velha senhora, no seu balanço da vida, tentava omitir o óbvio: sua vida também não foi fácil. Com cinco filhos para criar, o Juizado sugeriu que todas as crianças fossem levadas para a antiga Febem. A consideravam muito jovem para conseguir criar os filhos, quase todos com um a dois anos de diferença apenas. Após muito argumentar, ela conseguiu a chance de provar que era capaz sim. No prazo dado de um mês, ela cumpriu a condição para ficar com as crianças. Arrumou um emprego e matriculou todos na escola.

“É, vó, faz parte da vida. São as coisas que a gente não escolhe. Não depende da gente. Não podemos evitar a decepção. Ela acontece. Mas precisamos de coragem para enfrentar e prosseguir”. E assim a jovem rejeitou o conselho da experiente e amorosa avó, que apenas tentava evitar que ela topasse de novo com mais sofrimento. Preocupação legítima. Mas sofrer, quem pode evitar? Só se escolher deixar de viver e apenas vegetar.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Borboletas Azuis - O Equilíbrio

Conta a história que havia um linda e delicada borboleta-azul que era muito comum na década de 70, no sul da Inglaterra. Ela era admirada e, portanto, desejada. E, quando o homem deseja, ele encarcera. Chamam de colecionadores. Ou, dominadores. Ciumentos. Pessoas que amam demais.


Não bastasse isso, a borboleta-azul tinha mais um problema: para se reproduzir, ela dependia de uma babá para criar seus filhotes, uma formiga especial, uma formiga vermelha. A larva da borboleta-azul é incrivelmente criada por essa formiga. Coisas lindas e inexplicáveis da chamada Natureza.

O ser humano também é um ser social, que não foi feito para viver sozinho. Mas é o que tem acontecido na atual selva de concreto, nas grandes cidades, em que cada um corre para viver a sua vida, o máximo que puder, de preferência recorrendo a todos os tipos de artifícios para manter-se sempre jovem, num processo ilusório, como se pudesse ficar mais longe da morte.

Mas voltemos à borboleta. Para viver, portanto, a borboleta-azul dependia dessa especial formiga vermelha, que começou a ter problemas quando houve uma infestação de coelhos selvagens na região. Então, o homem teve uma brilhante ideia para evitar que a população saísse massacrando os coelhos: “vamos infectar os coelhos com um vírus que vai deixar os coelhos fraquinhos para os seus predadores e eles também vão ter mais dificuldade para se reproduzir”. Já viu alguém assim, cheio de boas intenções? Tentando te ajudar, mas na verdade só te deixando mais fraco?

Pois bem, os coelhos morreram e, com isso, a grama passou a crescer muito e a terra ficou mais fria e as formigas tinham dificuldades para comer aquela grama alta. Ninguém dava nada pelas formigas vermelhas, mas eram elas que permitiam o lindo cenário das borboletas azuis voando baixo pelo céu. Quantas vezes o ser humano julga apenas a aparência e não consegue entender que a borboleta-azul só existe por causa de uma formiga vermelha. Ou que aquela grande empresa depende de pessoas simples, invisíveis, números em meio a uma multidão. Que são pessoas sujas nas ruas, que catam o nosso lixo, para reciclagem ou não, que permitem que vivamos em lugares sem pragas, ratos e baratas. Milhões de seres invisíveis em meio a uma sociedade onde todos (ou quase todos) buscam os seus cinco minutos de fama.

Mas onde estavam as borboletas mesmo? Ah, sim, a história. Pois bem, sem as formigas vermelhas especiais, as lindas e admiradas borboletas-azuis ficaram sem suas babás. E chegaram a ser declaradas extintas. Como o ser humano tem a terrível capacidade de matar aquilo que tanto ama, como uma criança que não sabe ainda amar um pequeno pintinho e o aperta demais. E o sufoca. Esses somos nós. Ou pelo menos aqueles que lutamos para não sermos. Pessoas que matam por amar demais, por não saber como lidar com situações, por não buscar o conhecimento, por negar a liberdade ao objeto amado.

Assim como no caso das borboletas-azuis, o equilíbrio é a chave para a felicidade e o combate à depressão. Pensemos nisso!


Borboleta - A Transformação

Que a borboleta é o símbolo da transformação, da metamorfose, todo mundo sabe. Estampada em tatuagens pelos corpos das pessoas, principalmente mulheres, a borboleta não só representa graciosidade, mas também transformação, dores, libertação.

A lagarta é o ser jovem e obviamente é completamente diferente de seu estágio belo e pleno de borboleta, sua fase adulta. A metamorfose da borboleta é total e por isso é chamada de completa pelos cientistas. Um ser que se transmuta em outro absolutamente diferente. É para nós, leigos e admiradores, como uma mágica! Uma lagarta, geralmente não muito apreciada, entrando em seu casulo e se transformando em uma linda borboleta a enfeitar e colorir o mundo.



Às vezes a vida nos transforma como a uma lagarta. Rastejamos pelo mundo, achamos que o conhecemos, mas ainda vemos tudo de forma muito limitada. Até que de repente somos chamados ao casulo. Presos lá dentro pensamos que é o fim. Talvez a lagarta também, porque o que muitos não sabem é que, no seu casulo de seda, a lagarta está passando por um processo de autofagia, de autodestruição. Se abríssemos o casulo na hora certa, encontraríamos uma verdadeira “sopa” de lagarta!

Mas o que parece uma sopa, uma desorganização total, na verdade faz parte do processo. Do processo de mudança. A mudança que tanto evitamos, porque dói. Não sei se a lagarta sente dor nesse processo, mas penso que sim já que é o seu próprio suco ácido digestivo que a corrói. Mas nós certamente sentimos dor. E só aceitamos a dor da mudança quando ela é maior do que a dor de viver como lagarta ou, pior, como uma sopa de lagarta presa em seu casulo.

Mas lá dentro do casulo, nesse aparente caos, nessa aparente total destruição, na verdade o que é essencial está muito bem preservado. A essência da lagarta, suas células principais não morrem. E são essas células que vão permitir que a lagarta vire borboleta. Incrível, não?

Pois é, encontrar-se no meio da metamorfose é quase uma loucura. Uma missão insana em que a gente culpa o mundo, o terapeuta, a família, os amigos. Ninguém parece ser capaz de nos ajudar a entender o que está acontecendo. Mas tudo pode se resumir em uma palavra: paciência. Não adianta a lagarta tentar sair do casulo antes de aceitar as transformações. Ela tem que esperar. Se tentar sair antes, certamente morrerá. É preciso passar pelo processo.

A espera pelo voo e finalmente pela sensação de liberdade parece interminável. Um jogo que não tem fim. Só quem passa pela dor da solidão, do caminho da depressão, é que conhece o que é estar num casulo se desfazendo, se desmontando, buscando ressignificar-se, dar um novo sentido para a vida. Tudo parecia tão perfeito enquanto lagartas, sabíamos onde tudo estava, ainda que não fosse bem esse o lugar. E, quem diria, estávamos até mesmo acostumadas a rastejar.

Mas quando a vida nos chama para o casulo, para a metamorfose, é preciso coragem para enfrentar. É uma questão de vida ou morte. Ou você muda ou se entrega. Ou você luta e percebe o mundo de outro ângulo, aceita virar uma borboleta, não sem antes passar pelo casulo, pela dor. Ou aceita virar “sopa” e fica lá. Dentro do seu casulo, sem saber que pode se transformar em algo ainda mais bonito, mais consciente do mundo que o cerca. Agora você pode ver de cima. O seu ângulo de visão mudou. E simplesmente descobre que há infinitas possibilidades...