quinta-feira, 20 de abril de 2017

Onde estão meus pais?


Nos tempos atuais, ser pai e mãe não é para qualquer um. O homem é um ser social, ele precisa da comunidade para suprir suas necessidades físicas e emocionais. Mas o que me parece é que, nas grandes cidades, cada vez mais a socialização precisa ser comprada: creches, escolas, colônia de férias, babás para tomar conta dos filhos enquanto eles brincam com outras crianças no parquinho.



Bom, quem pode culpar os pais? Trabalha-se muito, o tempo é curto, falta tempo para si, dinheiro e tempo para ter mais de um filho, os parentes moram longe e a família se resume ao seu núcleo familiar. Os avós não se aposentam tão cedo, precisam ou querem continuar trabalhando e já não participam mais tão ativamente da criação dos netos.

É uma multidão em meio a um isolamento silencioso, o isolamento emocional, que tem levado à tão temida doença do século, a depressão. Segundo estimativas, a depressão pode estar atingindo até 20% da população mundial. E as nossas crianças não estão de fora. Nas últimas semanas, nas redes sociais, há uma forte campanha alertando sobre o jogo infanto-juvenil de tendências suicidas, Baleia Azul. O jogo ocorre em grupos fechados via WhatsApp ou Facebook.

Mas a pergunta que que não quer calar é se a culpa é do jogo ou da nossa sociedade. E não estou falando da falta de atenção da família ao comportamento dos filhos, da ignorância sobre a doença depressão ou da falta de assistência da saúde pública. Mas do porquê de estarmos construindo uma sociedade de deprimidos.

Na Netflix, a série sobre o suicídio de uma adolescente, “13 reasons Why”, está batendo recorde de audiência. As pessoas estão realmente preocupadas e interessadas no assunto, porém parecem que ainda estão muito longe de compreender as causas e raízes da depressão ou do suicídio.

Em todos os grupos brasileiros de debate sobre depressão e ansiedade no Facebook dos quais participei, falar sobre a série "13 reasons Why" ou o jogo Baleia Azul é proibido, podendo o usuário ser banido do grupo. Afinal, para pessoas deprimidas assistir à série geralmente coloca ainda mais “para baixo”, muitos se identificam com a personagem, afirmam que choram muito, ficam arrasados e, acredito eu, até estimulados pela ideia suicida. Confesso que preferi seguir o conselho dos moderadores de grupo e achei melhor não assistir já que também sofro da doença.


Claro que sou adulta, sou mãe, assim que descobri que estava com depressão iniciei o tratamento, mas nossos adolescentes estão mais vulneráveis. A adolescência é e sempre foi uma fase difícil e, quando tudo parece perdido, a família não te entende, não há o medo de morrer, o que se vê é apenas o medo de viver e continuar com todo esse sofrimento.

A maior parte das pessoas não entende que depressão não é tristeza, não se mede por quem sofreu mais ou menos, não é falta de Deus nem frescura, mas um estado de saúde psíquico comprometido. Se fosse câncer ou pneumonia, todos entenderiam, mas um adolescente se cortando é visto por muita gente ainda como uma forma de chamar a atenção dos pais ou de castigá-los por não fazerem suas vontades etc.

Muitas são as desculpas para os pais se negarem a ver o óbvio: está mais difícil, sim, criar filhos saudáveis e felizes. E se você não está disposto a se jogar de cabeça nessa empreitada, pôr os seus filhos em primeiro lugar e entender que colocá-los nas melhores escolas e faculdades não é necessariamente o mais importante, mesmo nesse mundo louco, altamente competitivo, em que se precisa ter um supercurrículo para se ter a chance de um salário mediano... Conselho: não tenha filhos. Por mais que a sociedade te cobre, esta não é uma missão obrigatória. Mesmo que eu e muitos venham te dizer que é a melhor experiência da vida e o maior amor que você vai ser capaz de sentir, sabemos que não é assim para todo mundo.

Pode parecer radicalismo, mas me defendo dizendo que é conselho de mãe. Não estou desencorajando a paternidade, mas chamando à responsabilidade. Mesmo pequena, vejo minha filha sofrer com a solidão de ser filha única, de não ter primos no quintal para brincar, como era antigamente, com todo mundo perto, tios, avós e agregados.  E faço todo o esforço para contornar essa situação, levando-a pessoalmente para brincar com os amigos à noite, quando algumas vezes eu gostaria apenas de descansar, ou ficar morrendo de saudade dela porque foi brincar na casa de algum parente com as primas quando eu queria estar com ela no final de semana.





Sei que, quando ela se tornar uma adolescente, terei que estar ainda mais atenta às companhias, ao que assiste na TV, restringir o acesso à Internet, invadir, sim, por vezes sua privacidade. Mas principalmente dialogar, entender seus anseios, suas necessidades, seus medos, o que tem acontecido na vida dela. Esperando pelo melhor, que ela possa me ter como amiga especial, aquela para quem não se conta tudo, afinal mãe tem que ser mãe e não pode concordar sempre e achar tudo legal. Mas aquela amiga com que a gente conta quando mais precisa, para quem falamos as coisas realmente importantes, para quem a gente pede socorro quando está em apuros.

E eu espero ficar por aqui um bom tempo, minha filha, para apoiá-la no seu crescimento e desenvolvimento. É claro que também vivo para mim, não abro mão de tudo por você, mas de tudo que for necessário (e mais um pouco, não vou mentir) para vê-la crescer feliz. Espero não te decepcionar e, enquanto eu viver, que você não venha fazer a terrível pergunta: “Onde estão meus pais?”. E, quando eu morrer, que você saiba exatamente onde me encontrar: no seu coração.  

sábado, 8 de abril de 2017

O dia do perdão

O problema da depressão é que ela muitas vezes chama junto consigo a ansiedade. E aí ela te rouba a alegria, a vontade de viver, a energia e te dá em troca cansaço, ansiedade, agressividade, medo, tristeza, pânico. E como se não bastasse tudo isso te levam embora também familiares e amigos que não conseguem compreender a doença ou não suportam ficar perto da dor. E talvez seja essa a parte mais difícil para quem sofre da doença: ver as pessoas se afastando de você no momento em que você mais precisa. E, como consequência, a doença cresce e você fica ainda mais deprimido, rancoroso e se afasta cada vez mais das pessoas que ama.


Meu terapeuta me disse uma vez que o ser humano não suporta ficar perto da dor. Ele faz de tudo para, se possível, evitá-la. Fico pensando que tem pessoas que não conseguem nem mesmo ir a um enterro de um ente querido ou de uma pessoa qualquer, apenas para prestar solidariedade à família. Imagina estar perto de alguém que geme de dor, mas você não vê onde dói, nenhuma fratura exposta, nem uma radiografia, tomografia, eletrocardiograma, diagnóstico de tumor maligno. Será que está doente mesmo? Não será só tristeza sem motivo? Tem tanta gente pior... Tetraplégicos agarrando a vida com força e fazendo de tudo para ser felizes. Por que fica aí deitado na cama, ou chora sem motivo, fica ansioso, abatido, não quer se divertir, falar de assuntos banais ou cotidianos? Por que oscila tanto e ora parece feliz, ora parece triste?

Na verdade, não entendem o que você tem, o seu diagnóstico, nem a sua luta pela sobrevivência. Que você todo dia busca terapia, meditação, acupuntura, religião, apega-se às responsabilidades do trabalho, com os filhos, uma motivação forte para continuar a levantar todos os dias quando o que você queria mesmo era fechar os olhos e esperar tudo passar ou, quem sabe, a morte chegar. Mas ela não chega...


E você não entende que as pessoas dão o que podem, o que sabem, que podem ser cruéis, sim, mas às vezes não é falta de amor, só não sabem como te ajudar e não aguentam mais ficar perto da sua dor.  Nessa hora, você vai se sentir abandonado, mas entenda, perdoe, prossiga. 

Alguns vão dizer que é falta de comunhão com Deus, então você pode se culpar e achar que é um castigo divino e não uma doença real. Se fosse diabetes, pressão alta ou câncer, ninguém ousaria falar isso. Mas doença psiquiátrica é outra história... Muitos nem sabem se isso realmente existe. Será que não é loucura? Frescura? Surto? "Piti"? Nessa hora, você questiona a sua sanidade mental, mas fique firme, você não enlouqueceu, só está perdido dentro de um labirinto. Tenha paciência e você encontrará a saída. Procure ajuda de quem realmente tem luz para te ajudar.

Participei de alguns grupos sobre depressão e transtorno de ansiedade na internet e vi que há casos muito piores que o meu e histórias muito piores que a minha. Percebi como as pessoas se ajudam e se solidarizam com os problemas respondendo rapidamente aos comentários, às dúvidas, aos desabafos. Sabem que uma simples palavra amiga pode salvar uma vida do suicídio ou da entrega.


Chega então um dia em que você se fortalece e descobre que também pode ajudar. E, mais ainda, que também pode compreender os que não te compreenderam. Ainda que você não esteja pronto para retomar ou nem queira mais os velhos relacionamentos. Afinal, você mudou, não é mais o mesmo. Você descobre que, ainda doente, parece mais forte que antes, seu coração passou por uma ginástica incrível, e, se você sobreviveu até agora, o seu mundo mudou, o seu coração mudou e você vê tudo de um outro jeito. A felicidade importa mais do que o dinheiro, as pequenas realizações mais do que conquistar o mundo, e a caminhada se torna mais importante que a chegada. E você chora copiosamente ao ouvir a música Trem Bala, composta e cantada por Ana Vilela, com mais de oito milhões de visualizações no Youtube, e que não teria nenhuma chance no universo comercial da música, não fosse pela singeleza da canção, em um mundo em que as pessoas estão sobrecarregadas de tanta competição.


“Não é sobre chegar no topo do mundo e saber que venceu. É sobre escalar e sentir que o caminho te fortaleceu”. Trecho da música Trem Bala, de Ana Vilela (https://www.youtube.com/watch?v=TEjqASLuRGw

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Nise – O coração da Loucura (Alerta de Spoiler)

Tenho tentado fugir de escrever sobre temas tratados por filmes. Mas parece que agora eles me perseguem ou eu os persigo, sem perceber. Fato é que o filme “Nise – O coração da Loucura” (2016) é um filme excepcional para quem gosta de refletir sobre o ser humano e a sociedade, em geral. Sim, porque o filme vai muito além de tratar sobre psiquiatria e a contestação de técnicas hoje reprovadas como a lobotomia ou eletrochoques. É um retrato belo e delicado sobre a inclusão social, um debate sobre a loucura, sobre o amor, sobre a arte e o afeto. (Atenção: contém spoilers)


Sei que loucura por si só é um tema muito polêmico. Já tive um professor de Filosofia que passou seis meses defendendo que a loucura não existe. Então, por favor, não se prendam muito à precisão dos termos e conceitos, apenas deixem a emoção fluir. Não estou aqui para tratar de ciência, mas de sentimentos, coragem, superação, machismo, sofrimento e todo esse louco universo dos antigos manicômios brasileiros.


Tenho muitos motivos pessoais para me encantar com “O coração da loucura”. Já enfrentei pânico e leve depressão, “fichinha” para médicos e pacientes que enfrentam doenças infinitamente mais sérias, como esquizofrenia, transtornos diversos, sociopatia etc. E minha avó passou anos e anos como enfermeira na antiga Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro.


Além das milhares de histórias tenebrosas e tragicômicas que ouvi desde a infância, também tive a oportunidade de visitar o hospital psiquiátrico (antes, denominado, hospício), quando minha avó trabalhava lá. Ver pessoas nuas, pelo chão, alimentando-se como cachorros, exatamente como no filme. Mais tarde, já com 18 anos e estudante de Jornalismo, entrevistei o então jovem diretor da Colônia, que já aderira ao movimento antimanicomial – movimento esse que também gera muito “pano para manga”, principalmente para as pessoas mais pobres que precisam de internação para seus parentes. Mas isso é papo para outra discussão e não tenho gabarito para isso. Já temos estudiosos bastante debatendo esse tema.


O que importa é que o filme é um documental, visto que a Drª Nise da Silveira (1905-1999) foi de fato uma psiquiatra muito à frente de seu tempo. Não quero me estender muito aqui falando sobre o filme, os prêmios que ganhou, ou sobre a figura extraordinária da Drª Nise, uma vez que vocês podem encontrar muito sobre tudo isso com uma rápida pesquisa na internet. Mas gostaria de destacar algumas frases e imagens que marcaram a minha memória e as minhas emoções ao assistir ao filme.


“Eu não acredito na cura pela violência”. Isso é o que a Drª Nise responde quando volta ao Centro Psiquiátrico Pedro II, no Engenho de Dentro (RJ), depois de quase dois anos presa por posse de livros marxistas, e mais cinco anos vivendo com o marido na semi-clandestinidade, afastada do serviço público, por razões políticas. Quando retorna, ela se depara com as “modernas” técnicas de eletrochoque e lobotomia realizada para a “cura” de internos esquizofrênicos.


“Quem se preocupa muito com o que os outros dizem, acaba deixando de viver. Eu sei o que é melhor para mim”. Achei essa frase sensacional se pensarmos que hoje em dia nos preocupamos com tudo o que os outros pensam a nosso respeito, num esforço incansável de tentar agradar a todos a todo custo e sermos aceitos e nos encaixarmos nos moldes da sociedade. A personagem Nise não se deixa abater e aceita trabalhar no abandonado centro de terapia ocupacional do Centro Psiquiátrico, mesmo que isso custe o risco de abalar o seu prestígio como médica e pesquisadora.


“Eu não sou maluco. A loucura é que entrou em mim”. Essa frase de um dos pacientes, ou clientes, como a Drª Nise preferia chamá-los, nos leva a refletir sobre o que é a loucura, seus estágios, como e quando se desencadeia e até que ponto o ambiente em que se vive e o tratamento que se recebe não faz você parecer ou ficar ainda mais louco. É de uma incrível sabedoria do tal “maluco”, claro, é um personagem, mas saindo da boca dele é uma frase profunda e, desculpem os especialistas se digo alguma tolice, mas considero absolutamente genial.

“O meu instrumento é o pincel. O seu é o picador de gelo”. Sem medo, Drª Nise responde sobre suas técnicas terapêuticas, desconsideradas e ridicularizadas pelos demais médicos da instituição, que usavam o picador de gelo na lobotomia. Tempos depois, as pinturas e esculturas de seus clientes foram reconhecidas pelo mundo artístico e aplaudidas por grandes críticos. Estamos falando da década de 40. Será que eu e você, sendo mulher, responderíamos a um homem dessa forma, dentro de um manicômio, em plena década de 40? Isso é que se chama coragem e determinação. 

“É a janela aberta vendo a paisagem. Um dia ela abre. Mas dá muito trabalho”. Paciente, já bem evoluído no tratamento terapêutico, falando sobre a sua bela pintura. Agora já dá para ver a paisagem, mas ainda não dá para sair. Dá muito trabalho, sim. Quem já passou por tratamento psiquiátrico, incurável ou não, sabe muito bem o que significa essa frase de completa libertação e o que é a luta diária em busca do equilíbrio e da sanidade.

“Se ia tirar, por que é que deu?”. Meus Deus, até onde vai a maldade e a burrice do ser humano. Como afronta, a direção do hospital mata os cachorros que a Drª Nise mantinha com seus pacientes para promover os laços de afeto e auxiliar no tratamento. Hoje essa técnica é mais do que comprovada. Acho que fazem isso por pura inveja. Não se contentam que um médico possa estar tendo sucesso usando cachorros. Que insanidade até para a época! Mas será que nos dias de hoje não acontecem coisas parecidas? Quantos gênios, de verdade, são compreendidos em vida? E quantas pessoas não querem abafar outras por pura inveja até num simples trabalho? 

Nise também grita como louca enquanto o paciente Lúcio grita com a dor da perda de seu cachorro. Isso se chama amor e empatia. Vai além da profissão. Não precisa explicar muito, não é? Uma cena forte e muito comovente.



Por fim: “Há dez mil modos de ocupar-se da vida. E de pertencer à sua época”. Esse é aquele momento em que você redobra a sua atenção: o filme nos brinda com a aparição da verdadeira Drª Nise, já bem idosa. Ela diz que pensa como Antonin Artaud (1896-1948)* e então se corrige, como quem puxa a frase lá do fundo da memória, mas não importa, a interpretação é ainda mais bela: “Há dez mil modos de pertencer à vida e lutar pela sua época”.

Nessa hora, com o coração feliz e apertado pela oportunidade de conhecer essa linda história, recolho a minha insignificância, mas aproveito a admiração, a força e a inspiração dessa mulher, Drª Nise da Silveira, e cada um de seus clientes, portadores das mais diversas condições clínicas, esquizofrênicos, loucos, artistas fenomenais, que nos ensinam o que é ser mais humano, como Fernando, Adelina, Lúcio, Carlos, Emygdio, Octávio e Raphael. Sim, é possível!



*Antonin Artaud (1896-1948) foi poeta, teatrólogo e dramaturgo francês de inspirações anarquistas, considerado um louco visionário do teatro surrealista, desenvolvedor da teoria do teatro da crueldade, inspirado no teatro oriental. O poeta, que defendia a reprodução nos palcos dos sonhos e dos mistérios da alma humana, foi internado várias vezes, sendo submetido a eletrochoques e outros tratamentos violentos, morrendo aos 51 anos, num quarto de manicômio. (http://antigo.programacinesom.com/2016/04/nise-o-coracao-da-loucura-resgata.html)