Em tempos de terror em meio a uma pandemia mundial, já passou da hora de falarmos sobre depressão e suicídio, inclusive entre crianças.
A depressão é uma das doenças que mais cresce em todo mundo e desnuda a incapacidade do nosso governo e da sociedade em lidar com os problemas psiquiátricos e psicológicos. Na rede pública de nosso país, o atendimento é precário, bem como na rede particular associada a planos de saúde. O tratamento é caro, impossibilitando a maior parte da população de ter a atendimento e cuidados adequados.
Nossa sociedade encontra-se também totalmente despreparada e
mal informada para lidar com a depressão, o que dificulta o tratamento precoce.
Recentemente estava junto a um grupo de pessoas que relatava o suicídio que
tinha acontecido nas redondezas, pouco tempo antes. Uma jovem havia se jogado
do sexto andar de seu prédio. O que me chamou a atenção foi o que as pessoas
diziam: “uma médica, tão jovem e tão bonita”. Percebam, a beleza, juventude e o
sucesso profissional parecem ser antagônicos à depressão e ao suicídio.
Isso dificulta ainda mais o apoio a pessoas que estão
sofrendo com a depressão. Precisamos urgentemente esclarecer e desmitificar as
questões que cercam essa doença e o ato de desespero em tentar eliminar a dor
profunda e insuportável.
Ninguém gosta de estar perto da dor. Lembro-me de quando
saía com minha filha ainda bebê e como é difícil para as pessoas suportar o
choro e os berros de uma criança. Logo ficam agitadas, se oferecem para ajudar,
ainda que saibam claramente que a mãe está atendendo às necessidades do bebê e
não necessita de ajuda.
Vivemos em uma sociedade em que o choro e a dor devem ser
enclausurados no recinto de quem chora. Não devem ser expostos porque é sinal
de fraqueza. Como se a vida não fosse composta de incontáveis momentos de dor.
Acrescenta-se a isso o fato de que a depressão tem um componente
genético e não se trata de quem tem problemas maiores ou menores. Não devemos
comparar as dores. Dor é dor. Não importam as circunstâncias de quem está
deprimido. Muitas pessoas sem o tratamento adequado sequer sabem o motivo da
sua dor. Sem falar que várias doenças e remédios podem ter a depressão como
efeito colateral. Ou seja, um olhar mais atento e menos individualista pode salvar
uma vida.
Precisamos ainda desassociar a depressão da religião, no
sentido de crenças baseadas em “ausência de fé em Deus”, “ações demoníacas” ou
que “o suicida é fraco e vai para o inferno”. Também não adianta dizer para o
depressivo que ele é “preguiçoso”, “incapaz”, “tem tudo na vida e não valoriza”,
“olha como o céu está bonito hoje” e coisas do tipo.
Parece que ainda vivemos na escuridão de uma caverna
completamente distante do conhecimento quando tratam-se de doenças e
transtornos psiquiátricos. Até quando vamos escolher continuar na escuridão?
Quando é que finalmente vamos sair da caverna em busca da luz do conhecimento e
ajudar a salvar vidas?
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